De Bar em Bar: Dorrego, em Buenos Aires, uma imersão na alma portenha

Viajante faminto e sedento eu tenho a teoria de que o melhor lugar para sentir a alma de uma cidade é o bar. O balcão do bar. De pé, copo na mão, olhando ao redor, observando, escutando, pedindo para experimentar aquilo que os vizinhos comem, provando o que eles bebem, tentando assim sentir o que eles sentem. Viajar, afinal, é isso. Observar, entrar no lugar dos outros, fazer o que eles fazem. Postais, museus, monumentos, praças, parques, praias, montanhas, trilhas deveriam ser apenas detalhes no roteiro. Caminhar pelas ruas, entrar nos bares à esmo, os mais populares, petiscar, biritar, papear com desconhecidos, colocar os cotovelos nos balcões. Vai por mim, fazendo isso, em menos de 24 horas o turista está repleto de referências locais, de experiências inéditas. Afinal, o ser humano é igual em todo o mundo. O que muda de lugar para lugar é o bar.

O piso em preto e branco, uma Quilmes tristemente sem colarinho, a mesa arranhada: bem-vindo ao Bar Dorrego – Foto de Bruno Agostini

Mais até do que representar uma cidade, o bar representa às vezes um bairro, uma praça, ou mesmo apenas uma rua. O que é muita coisa. Um desses bares emblemáticos é o Dorrego, na Praça de mesmo nome, em San Telmo, que representa o mundo do tango, as velharias da feira aos domingos, e seus artistas, uns bons, outros canastrões portenhos. A melancolia de Buenos Aires expressa de todas as maneiras. O grupo de tango com jovens de tranças rastafáris fazendo um repertório moderno, com piano quase estragado a céu aberto, o violoncelo, o bandoneón. A marionete dançando lindamente “La Ultima Curda”, na voz do “Polaco” Goyneche.

A gente entra no Bar Dorrego, e é um passaporte para esse universo tão argentino e tão latino. Dos janelões observamos Buenos Aires nua e crua. Pedimos uma Quilmes, e não importa se ela não é boa. Não estamos ali para beber uma IPA perfeita, nem para traçar uma morcilla cremosa por dentro e crocante por fora. Estamos ali para sofrer, para nos sentirmos portenhos, para cantarolarmos mentalmente “Cuesta Abajo”:  “Si arrastré por este mundo / la vergüenza de haber sido / y el dolor de ya no ser”.

Uma tarde de sábado no Bar Dorrego nos ensina mais sobre Buenos Aires, as entranhas do povo portenho, do que dias seguidos flanando pela Florida, comendo nos restaurantes bacanas de Palermo, fotografando os grafismos coloridos de La Boca ou tomando um café no Tortoni. Inaugurado em 1830, é o mito de Fernando Pessoa em forma de bar: “O mito é o nada que é tudo”.

Porque tudo está lá, desgastado pelo tempo, desde a inauguração. A máquina enferrujada de café, os compartimentos de alimentos que indicam que no começo ali era um armazém de secos e molhados. A caixa registradora, e até  a foto do Gardel, nascido supostamente em 1890, que enfeita a parede ao lado de tantas outras imagens desbotadas, parece estar ali desde 1830. Recordações empoeiradas, arranhadas, como se dispostas por um decorador caprichoso. O Bar Dorrego, seguramente, foi projetado por um diretor de arte. Desses que fazem filmes com Almodovár. Porque o ambiente noturno, a luz baixa e amarelada, parece cena de cinema. Dessas histórias e lugares que fazem a gente pensar.

Nem ouse se sentar nas atraentes mesas do lado de fora. É preciso estar dentro, para sentir o bar.

Um café com medialunas sobre as mesas arranhadas ou uma caneca de Quilmes, tanto faz. O balcão riscado com chave traz declarações de amor, corações, nomes de pessoas e cidades. Um pratinho de amendoim na casca é a tristeza em forma de petisco, é a vida, dura. Mas para que comer ali? Deixe a fome para usar nas empanadas fritas do El Desnível, na parrilla do La Brigada, nos smorgasbords do Club Sueco, nos apimentados petiscos do Saigon ou – especialmente – peça o menu degustação do El Baqueano (para ficar só nos preferidos e já testados e aprovados).

Só coma no Dorrego se quiser turbinar a tristeza. A gente sai um pouco melancólico do Bar Dorrego. Inevitavelmente pensamos porque não somos aquilo o que poderíamos ser. Dá uma saudade que não sabemos do que, e de onde vem. E é pra isso que vamos até Buenos Aires. Esse papo de estar sempre feliz e sorridente, dançando e cantando, é chato pra caramba.

O Bar Dorrego, ao contrário de quase todos os outros, não poderia estar em outro lugar que não em Buenos Aires, na Praça Dorrego, esquina de Humberto Primo com Defensa. Porque bar que é bar fica numa esquina, ainda que só na metáfora. O bar da esquina é a casa da gente.

SERVIÇO
Bar Dorrego: Plaza Dorrego, esquina de Humberto Primo com Defensa, San Telmo, Buenos Aires. Tel. +54 (11) 4361-0141.

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