De Bar em Bar: Hometown Bar-B-Que: uma legítima, imperdível e deliciosa smokehouse no estilo texano, no Brooklyn

A fachada do restaurante, num ponto menos turístico do Brooklyn – Foto de Bruno Agostini

Nunca estive no Texas. Mas tive a sensação de estar entrando em um boteco em um rancho qualquer no interior do maior estado dos EUA quando cruzei a porta do Hometown Bar B Que, no Brooklyn. Faltavam os chapéus de cowboy, as pontas e os cintos com grandes fivelas, mas com exceção dos personagens, o cenário é mesmo autêntico, uma ambientação perfeita para essa que foi uma das minhas grandes experiências carnívoras que já vivi.

O cardápio escrito a pilot – Foto de Bruno Agostini
Tínhamos altas expectativas, o que sempre joga contra o lugar em questão. Tanto assim, que meu amigo, e naqueles dias guia de restaurantes e bares em Nova York, Gabriel da Muda, quando chegou à porta do lugar, se benzeu, e disse:
– Esse é um dos lugares que mais queria visitar. Tu vai pirar.
O menu de bebidas – Foto de Bruno Agostini
Pirei mesmo.
Decoração não é algo que me interesse muito em um restaurante, mas é claro que lugares bonitos e adequados à comida da casa, são sempre um elemento importante, e que até acaba por contribuir com a experiência.
O bar da Hometown Bar-B-Que – Foto de Bruno Agostini
O lugar estava bem cheio, era hora do almoço, e havia famílias, com crianças e até idosos em cadeira de rodas, casais, grupos de amigos, e amigas. O que não havia ali eram turistas. Éramos, sem dúvidas, apenas eu e da Muda como tal.
Duas IPAs, para instigar as papilas – Foto de Bruno Agostini
Antes de mais nada, uma pausa no bar, para duas IPAs, dessas que só instigam as papilas. Na verdade, duas.
Depois, fomos ao caixa, e começamos a nossa degustação.
Sou incapaz de dizer do que mais gostei. Mentira. Foi o mais improvável, para mim: o taco de pulled pork… Mas vamos pela ordem.
Brisket com coleslaw – Foto de Bruno Agostini
Primeira pedida: brisket. Nem precisa dizer que estava macia, untuosa e com toques defumados a carne. Perfeito equilíbrio entre carne, gordura e o tempero. Com o belo coleslaw dando uma quebrada nessa potência toda, amaciando o conjunto, quando necessário.
Taco de pulled pork, o melhor da longa tarde – Foto de Bruno Agostini
Já tinha notado que a tarde seria longa, e que o almoço seria sinistro. Mas quando chegou o taco de pulled pork eu fiquei pensando: por que raios a cozinha tex-mex que se espalhou pelo mundo é tão sem graça? Por que nunca tinha visto e nem provado taco de porco. Já de carne, de queijo, de frango, de peixe e até de camarão. Mas de porco, nunca. Foi, simplesmente, e de longe, o melhor taco de toda a minha vida. A base de milha era macia, como deve ser, e não dura, como muitas vezes vemos por aí. A carne vinha desfiada, com a sua gordura impregnando a massa. O coleslaw cumpria sua missão de equilibrar as gorduras, e por cima de tudo havia tirinhas crocantes de massa de milho, dando aquele crocância que faz bem a todo prato. Ao lado, umas rodelas de jalapeño, que se faziam necessárias – e que me fizeram ficar suando por um bom tempo.
Costelinhas de porco á moda coreana : picante e agridoce – Foto de Bruno Agostini
O que pedir agora? Korean sticky ribs?!?!?!?!?!?!?! Não dá para deixar essa passar. Pedimos. Outro grande acerto. A carne daquelas que se desprendem do osso, lambuzada com aquele molho agridoce e picante, salpicada com alho frito e cebolinha, para dar aquele toque verde, novamente dando ao conjunto mais equilíbrio e profundidade, frescor.
Aí, voltamos ao bar, e pedimos um uísque, para dar uma geral na boca tão intensamente afetada por tanta gordura e tanta pimenta, por tanto sabor e tanta fumaça (minhas roupas ficaram com cheio de defumadas até entrarem na máquina de lavar, alguns dias depois, e o meu chapéu manteve o “perfume” por uns quinze dias).
Vale dizer que, sim, uísque combina com comida, em particular com carnes defumadas no estilo texano.
Pastrami de bacon, digno de antologia suína – Foto de Bruno Agostini
Veio, então, algo que eu ainda não tinha nem visto, que dirá provado: pastrami de bacon, com honey mustard. Sim, pstrami de bacon. Ficou delicioso o Van Brunt Stillhouse Single Malt, uísque produzido ali mesmo, no Brooklyn. Uma carne que amamos feita a partir de um processo que também amamos. Bingo.
Tinha IPA na mesa também, e funcionou muito bem, assim como o Van Brunt Stillhouse.
O preferido do churrasqueiro – Foto de Bruno Agostini
Não havia a menor chance de sairmos de lá sem provar  o “beef ribs”. Vou repetir o que escrevi, na hora, no Instagram: “Este é o preferido do churrasqueiro: beef ribs. Até banguela come… sem talher. Que lugar, amigos. Que lugar. Venham, se puderem. Se for pedir um corte, que seja esse. Mas não deixe de provar os tacos. Prove o máximo que puder. Tudo o que pedimos estava excelente.”
Não tenho muito a acrescentar. Olhe a foto… Difícil descrever um prato como este melhor que a eloquência de uma foto.
Billy Durney, personalidade do mundo da carne nos EUA – Foto de Bruno Agostini

 

Já estávamos lá há muitas horas, e vimos o salão esvaziar. Num canto do bar, um sujeito com pinta de dono (há várias boas matérias com ele na internet, como esta: vale a pena ler – em inglês). A gente queria ver os fornos da cozinha. E como cara-de-pau é atributo necessário à vida, ainda mais para jornalistas, fomos lá falar com ele. Sim, era Billy Durney, nova-iorquino que viveu no Texas, onde aprendeu a fazer o Texas Barbecue como poucos, mesmo os nascidos na terra dos cowboys. Depois fui ver que ele é hoje um dos caras mais idolatrados e respeitos nos EUA quando o assunto são carnes. O cara é mesmo gênio.
Com prazer, ele nos levou até à cozinha, falou um pouco dos fornos, das carnes e de sua história. Apresentou ao time de cozinheiros, e vale destacar que são todos bem simpáticos, no salão (que não tem garçons, você pede a comida e a bebida e paga na hora – no bar até que dá para fazer uma conta de bebidas, e pagar no fim).
– Estou impressionado com vocês, não só por tudo o que comeram, mas também por já estarem aqui há quatro horas. Nossos clientes ficam, em média, de 20 a 30 minutos.
Deu vontade de provar o banana cream pudding. Afinal, além de o nome soar muito bem, tudo que havíamos provado até ali estava ótimo.
Mas tínhamos combinado que – depois do almoço – a sobremesa seria uma Key lime Pie, ali perto.
E lá fomos nós até o Steve’s Authentic Key Lime Pie, realmente muito boa, melhor até do que as que eu comi em Kew West, berço do doce que carrega o seu nome, uma torta de limão tahiti, com massa de biscoito e recheio cremoso, leve e fresco. Não à toa, o lugar é famoso por servir a melhor torta de limão de Nova York. O ambiente é caseiro, e familiar, e quem está no balcão é a mulher de Eteve’s, a mexicana  Victoria Tarpin, que criou uma versão do doce: é servido gelado, com palitinho e tudo, em forma de picolé, com cobertura de chocolate. Ela brinca, dizendo que primeiro se apaixonou pelo doce, e só depois pelo marido.
Na saída, ainda pudemos acenar para a Liberty Enlightening the World (Liberdade que Ilumina o Mundo), o nome oficial do monumento. Aposto que você não sabia.
SERVIÇO
Hometown Bar-B-Que: 454 Van Brunt St, Red Hook, Brooklyn, NY — 11231. Tel. (+01) 347-294-4644.
hometownbarbque.com info@hometownbarbque.com
Steve’s Key Lime Pie: 85 Van Dyke St, Brooklyn, NY 11231. Tel. (+01) 718-858-5333.
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