Vinho da Semana: Brunello di Montalcino Castello Banfi 2008 (ou “Uma madrugada no Sat’s”)

O Brunello di Montalcino Castello Banfi 2008: vinhaço – Foto de Bruno Agostini

 

Era uma noite de festa, o dia exato em que o Azumi completava 30 anos de vida, comemorações que ainda vão até o final do mês (amanhã tem Rafa Costa e Silva, e na próxima terça, dia 18, tem Ricardo Lapeyre, e a programação termina no dia 25, com Nello Garaventa). Eduardo Nakahara, do Mitsuba, era a estrela da noite, que foi mesmo memorável. Ao final, o marido italiano da Alissa Ohara, anfitriã do jantar, abriu uma caixa térmica e de lá sacou uma garrafa. Ele me entregou, dizendo algo assim: “Vinho que sai de casa não volta para casa”. Adoro os ditados e provérbios italianos (“Si non é vero é bene trovato”; “Al contadino non far sapere quanto è buono il cacio con le pere”), e as expressões populares (“Mangia que te fa bene”). Quando vi o rótulo, era simplesmente um Brunello di Montalcino Castello Banfi 2008. “Um dos meus produtores preferidos”, respondi agradecendo a gentileza, já planejando um belo jantar para esse clássico toscano. “Ah, mas vamos abrir essa garrafa agora”, contestou um amigo, de olho na garrafa. Reconsiderei o meu menu em casa (acho que seria paleta de cordeiro), e fizemos como fazemos muito: fomos terminar a noite no Sat’s, mas desta vez gloriosamente acompanhados de um belo vinho. Lá fomos nós, rememorando outra noite histórica, bebendo um vinhaço em um boteco clássico do Rio, na mesma Copacabana. Foi em 2014, quando saímos do Encontro Mistral, no Sofitel, e fomos até a Adega Pérola, acompanhados do  Julio Cesar Lopes de Heredia, bisneto do fundador da R. López de Heredia (Viña Tondonia), uma das bodegas mais admiradas do mundo. Levamos uma garrafa do tinto, safra 73. E bebemos em copo Cisper, enquanto degustávamos pelo menos metade do vasto cardápio de petiscos da casa.

“Quem faz vinho gosta que ele seja bebido, não importa o copo. Quem gosta de copo de cristal é sommelier”, disse ele, um tanto sério, mas também deixando uma ponta de galhofa no ar. Foi uma noite épica, que não teria sido tão boa num restaurante classudo, com taças Riedel.
Assim como também foi antológico a noite pós-Azumi, não só pelo vinho, mas pelo local. Quando chegamos com a garrafa, os garçons, que não são bobos, logo viram que se tratava de um grande vinho. E, depois de nos servirem num copo tosco (problema algum, e eles além de não cobrarem rolha, foram super simpáticos), um dos garçons foi buscar duas taças melhores, o que agradecemos, embora não fosse preciso.
Pode isso, Arnaldo? Brunello de Montalcino com barriga de porco, na madrugada de Copacabana? Não só pode, como deve – Foto de Bruno Agostini
O vinho estava magnífico, e foi acompanhado por uma pouco conhecida porção de barriga de porco na brasa, que virou talvez o meu petisco preferido ali. Mas isso não vem ao caso hoje, o tema aqui é o “Vinho da semana”, e nesta em que festejamos o Dia dos Namorados eu faço a minha declaração de amor à Sangiovese, essa uva tão versátil e companheira da boa mesa, capaz de fazer vinhos leves, refrescantes e frutados, mas que também dá origem a exemplares como esse Castello Banfi, maduro, complexo, profundo, cheio de mistérios e camadas de sabor, combinando a potência da fruta com a intensidade do território (como os italianos se referem ao “terroir”), nesta caso uma garrafa ainda mais preciosa, pela idade: são 11 anos de vida, e a safra 2008 foi excelente na região do Brunello di Montalcino. Tempo que arrendondou os taninos do vinho, e que nos brinda com notas de evolução, onde encontramos futas maduras, como amoras e ameixas, mas também alcaçuz, especiarias, com notas de pimenta, cerejas em calda, chocolate e um monte de coisa. Delicado, tem uma acidez vibrante, que equilibra o conjunto, deixando aquele rastro na boca, desses traços que dão vontade de mais uma golada – e ser “glou glou” não é exatamente uma característica comum aos Brunello di Montalcino.
Ficou bom com com a barriga? Sim, mas ficaria ainda melhor com o plenejado cordeiro assado, bem como vai bem com pato, javali e carnes de sabor marcante, de uma maneira geral.
Importado pela World Wine, a safra 2013 custa R$ 603 no site da empresa.
Não encontramos a safra 2008 deste vinho em sites confiáveis, porém em cartas de alguns restaurantes ainda é possível encontrar. Mas a safra 2013 não faz feio, e guardar umas garrafas – para quem pode – é uma boa ideia.
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