A arte da toneleria: aprenda, na Borgonha, como se fazer uma barrica de vinho

#TBT – O DIA EM QUE EU FIZ UMA BARRICA DE CARVALHO EM MEURSAULT, CORAÇÃO DA “TERRA SANTA” DO VINHO: A BORGONHA*

Existem incontáveis atividades para entreter os turistas que passeiam pelas regiões vinícolas ao redor do mundo. Entreter, e também ensinar a respeito da bebida. Na época da colheita, os visitantes podem cortar os cachos e fazer piquenique nos vinhedos, vivendo um dia de viticultor, por exemplo – um dos programas mais comuns. Em Portugal, onde a prática ainda sobrevive, a pisa da uva é uma das maiores diversões. É possível, ainda, viver a experiência de ser um enólogo, provando diferentes vinhos e determinando um corte à sua maneira, levando uma garrafa para casa, com o assemblage criado por você. Já vi museus dos mais diversos temas, com acervos relevantes, funcionando dentro de bodegas. Obras de arte, coleções de carros ou de peças pré-incaicas (ou pré-colombianas), acervos fotográficos históricos, e com memorabilia relativa ao vinho, espetáculos de teatro e artes cênicas, parques temáticos… Existem infinitas possibilidades, incluindo aulas de cozinha, shows de música local, degustações de produtos típicos, projeções de filmes. Em mais de dez anos de estrada no mundo do vinho, já perdi as contas de quantos programas diferentes eu vivenciei. É sempre divertido viver essas experiências.

Foto de Bruno Agostini₢

Ontem, fiz algo que jamais tinha visto, e foi dos mais divertidos e originais: ajudei a produzir (parte) de uma barrica, e tive uma deliciosa demonstração de como se faz este importante elemento da produção vinícola, cuja origem foi com o propósito de ser algo que facilitava o transporte, e que com o tempo passou a ser objeto determinante no estilo de certos vinhos “com passagem em madeira”, multiplicando as possibilidades do enólogo.

Foto de Bruno Agostini₢

Para a brincadeira se tornar ainda mais rica, tudo isso aconteceu – nada mais, nada menos – em Meursault, uma das denominações com presença mais marcante da madeira. Achei não apenas divertidíssimo, algo capaz de agradar qualquer turista, mesmo quem não tem qualquer interesse particular no vinho, mas também altamente didático e esclarecedor (neste caso, especialmente para o enófilo amador ou para os profissionais da área).
Fomos ao Château de la Velle, em Meursault, mas Frédéric Gillet (frederic.gillet@art-du-tonneau.fr), da empresa Art du Tonneau, que organiza a atividade, pode ir fazer o mesmo em qualquer lugar, num hotel, ou numa vinícola, ou mesmo em uma casa particular. A atividade pode acontecer para grupos de tamanho e perfil o mais variado, de 2 a 200 pessoas.
Primeiro, ele traça um panorama histórico, lembrando os primórdios da utilização da barrica de madeira, invenção engenhosa dos celtas, que chegou para substituir as ânforas de barro, que muitas vezes se quebravam no transporte. Isso há 3 mil anos.
A família de Frédéric faz isso há gerações, e hoje eles produzem nada menos que 10 mil barricas por ano (um dados curioso: em Bordeaux a capacidade é de 225 litros, enquanto na Borgonha são 228).
Depois, ele vai explicando o processo de produção, em todas as suas etapas, mostrando as ferramentas antigas e falando ainda das técnicas modernas. O corte dos carvalhos, cuja idade ideal para isso são 200 anos; a secagem da madeira, exposta ao tempo; a precisão na hora de fazer as ripas, umas maiores, outras um pouco menores, para um encaixe perfeito.

Foto de Bruno Agostini₢

Até que ele mostra, com rara e natural destreza, como se monta uma barrica.


Depois, o grupo foi dividido em duas equipes, para cada uma montar a sua barrica. E realmente é muito divertido fazer esta montagem, percebendo que não é algo fácil. Mas cumprimos a missão. (Olha eu aí, em ação, marretando a argola que dá estabilidade à barrica).
Depois, através de um vídeo, ele mostrou o processo de tosta, finalizando o programa apresentando como se colocam as duas tampas, vedando a barrica com uma mistura de água e farinha.
Taí um programa original, lúdico, diferente, divertido e muito esclarecedor.

Olha aí o meu grupo: missão cumprida.
Mais informações no site da empresa, onde encontramos ainda bons vídeos sobre o assunto. Instagram: @art_du_tonneau

* Este texto foi escrito durante a viagem, no outono de 2014. A partir de hoje vou aproveitar as quintas para republicar aqui reportagens que fiz para jornais, revistas e também para os meus blogs, o finado Enoteca, n’O Globo – hoje a Enoteca Agostini, coluna de vinhos desta revista digital Menu Agostini – e para o Rio de Janeiro a Dezembro, agora também hospedado aqui nesta revista digital.

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