Porque chorei no World Trade Center Memorial

Foto de Bruno Agostini©

Eu virei jornalista no dia 9 de julho de 2001, segundo minha carteira de trabalho.

Dois meses depois, em 11/9/2001, fiz o de sempre. Caminhei cedo na praia e tomei um banho para me preparar para a dupla jornada: primeiro o trabalho e depois a faculdade.
Liguei a TV na Globonews. O World Trade Center estava em chamas.
Acidente? Provavelmente, não, comentavam os jornalistas, meio perdidos e chocados, como eu. Já falavam em atentado terrorista.
Percebi a gravidade. Imaginei o desespero das pessoas.
Vi ao vivo um avião se chocar contra o segundo prédio do WTC.
Vou pro jornal, decidi, de imediato.
Cheguei rapidamente.
Não tinha lugar fixo, como bom estagiário. Então, eu me sentei num setor da Economia, porque me indicaram a fazer isso, uma vez que parte da equipe que ficava ali chegava mais tarde. Era uma rotina. Usava quase sempre o mesmo computador.
Não tinha muito o que fazer. Estava desatento e perplexo com tudo. A redação era um caos.
Não lembro bem a hora.
Mas, acho que por volta das 11h30, imagino, no meio do alvoroço, o Ricardo Boechat – então diretor de redação do JB – sai do seu aquário, logo atrás de mim, e anuncia:
– Parem tudo! Vamos fazer uma edição extra. Fechamento às 14h, para circular hoje no fim de tarde.
(Não posso precisar os horários, mas foi mais ou menos isso).
Ele reuniu os editores, distribuiu as tarefas e todos arregaçaram as mangas.
A redação, vazia quando cheguei, já estava lotada.
Meu chefe, também mestre e mentor – e depois admirado amigo – Alexandre Carauta, já estava lá e me deu a missão, porque éramos da equipe de Turismo.
– Bruno, ligue para hotéis em Nova York. Encontre um brasileiro, pelo menos. Pegue o depoimento e escreva em primeira pessoa.
Comecei a telefonar. Sei lá, foram dez hotéis pelo menos procurando um inexistente “Mr. Silva”, pela abundância do sobrenome  aqui. E nada.
Lá pelo décima tentativa, talvez mais, a recepcionista confirma haver uma família Silva no hotel. Era um Marriot, isso jamais esqueço.
Ela transfere a ligação. Estava aliviado de ter conseguido. Missão dada é missão cumprida.
– Senhor Silva. Aqui é Bruno Agostini, do Jornal do Brasil. Poderia falar comigo? De que cidade o senhor é?
– Sou de Lisboa.
Nem precisava falar muito. O sotaque não engana.
Fiquei sem reação. Decepcionado. Mas colhi mesmo assim um rápido depoimento, de garantia. Já estava na linha com alguém lá. Não vou desperdiçar.
Mas logo cortei.
Tinha que encontrar um BRASILEIRO.
Continuei insistindo.
E, em mais duas ou três tentativas, ainda em busca de “Mr. Silva”, eu consegui.
Fiz a entrevista.
Escrevi o texto curto.
Como se fosse ele.
Foi um pouco angustiante.
Era um box, pequeno destaque no meio de uma edição, colocado em uma “caixa”, separada por linhas finas, e com assinatura do autor, no rodapé, com o texto entre aspas, indicando que aquilo foi um depoinento. Em primeira pessoa. Acho que foi assim que saiu na edição extra.
Missão cumprida.
Jornal indo para as rotativas.
Então, voltei a ligar para hotéis de Nova York em busca de mais personagens.
Falei com vários. Aspas entraram em diferentes reportagens na edição do dia seguinte, que fechamos bem tarde da noite.
Assim, no dia 11 de Setembro de 2001, eu entrei para o mundo do jornalismo.
Foi mais ou menos assim.
Foto de Bruno Agostini©

* Em 2017, em viagem com a filha, fomos ao memorial do WTC.

Comecei a chorar. Fiquei emocionado.
– Pai, porque você está chorando?
Aí, contei essa história, contextualizando a menina de 11 anos o que eram aquelas águas correndo, aqueles nomes gravados na pedra, o que era aquele local…
Acho que ela entendeu minhas lágrimas.
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