Uma década de Casa do Sardo, uma legítima trattoria mediterrânea

Eu e Silvio Podda, no restaurante: grande figura e cozinheiro – Foto de arquivo pessoal

“Há exatos 10 anos, ao meio-dia de 12/02/2012, numa data quase cabalística, abriu as portas a Casa do Sardo.

Neste mesmo ano estive lá, e voltei algumas vezes.

Mexilhões e fregola, as bolinhas de sêmola: tradição sarda – Foto de Bruno Agostini

Anos depois, em 2016, o chef Silvio Podda me chamou para um almoço em seu restaurante. O pretexto era provarmos pratos e ingredientes típicos de sua terra natal, esta linda ilha mediterrânea, um dos lugares onde melhor comi na vida. Ele havia voltado recentemente da Sardenha com a mala recheada de iguarias, incluindo uma conserva de peperoncino com atum produzida por sua irmã.

O leitão, de criação orgânica no interior de SãoPaulo – Foto de Bruno Agostini

Havia ainda pecorino, bottarga, pane carasau, culurgiones, fregola, seadas… e muito Vermentino e Cannonau – di Sardegna.

Ali nasceu uma amizade, que nos levou a incontáveis encontros regados a boa e farta comida e lindos vinhos.

A “Cordula di Agnello Sardo” ou “Trattalia”: miúdos de cordeiro enrolados com suas tripas: incrivelmente bom – Foto de Bruno Agostini

E até uma viagem de 10 dias, onde rodamos de Norte a Sul, visitando vinícolas, produtores rurais, excelentes restaurantes e quase toda a ‘famiglia’ do grande maestro Silvio Podda.

Voltei fascinado. Essa história rende um livro.

Faremos!

O pargo al Vernaccia – Foto de Bruno Agostini

Parabéns, amados Silvio e Gladys, que assim como o restaurante também aniversaria hoje.

Vamos brindar!!!!!

@silviopoddasardo @vitoratogladys @casadosardo”

* Este post foi escrito para o Instagram @brunoagostinifoto

Continuando…

Certa vez, o amigo Silvio Podda me pediu para redigir um texto curto, falando da gastronomia sarda, para resumir a uma jornalista que lhe pediu. Eu escrevi isso:

“Bom, a cozinha sarda é muito variada, por conta da geografia, das condições climáticas e também em função de seu próprio povo, que ama a comida, os vinhos, a cozinha.

O relevo montanhoso da ilha favorece. Temos um litoral rico em pesca, com peixes e todo o tipo de frutos do mar: ouriços, mariscos oa mais diversos, crustáceos, como camarões e lagostas, além de polvo, lula (e sua tinta) e tudo o que se pode imaginar. Com a ova da tainha fazemos a bottarga, muito utilizada por lá. Eu sou o maior comprador dessa iguaria de uma marca brasileira, a Bottarga Gold, um produto muito bom, por sinal. Fazemos massas com mariscos e pescados diversos, muitas vezes cozidos no vinho Vernaccia, porque o sardo adora usar este vinho branco na comida. Também fazemos cordeiro, cozido na vernaccia. E das nossas montanhas temos além do cordeiro, também leitão, e bom gado, e esses animais se favorecem de um pasto natural com cerca de 70 tipos de capim, ervas e outros alimentos, que deixam a carne com sabor muito bom, único. Fazemos muito leitão, e assim como o brasileiro, adoramos um churrasco, e cozinhamos muita coisa na brasa. Peixes, lagostas, cordeiro, leitão, e até carne de ovelha, que usamos muito, e agora anda na moda por lá hambúguer de pecora, que é a ovelha. Por isso, nosso queijo mais popular, o pecorino, tem esse nome, porque é feito com carne de ovelha. Temos muito queijo de cabra também.E também fazemos muitos embutidos e carnes curadas. Temos açafrão, aspargos e alcachofra selvagem, além, falando nisso, estou fazendo um festival de alcachofra, hoje e amanhã, com vários pratos, incluindo um risoto com camarões, pecorino e guanciale, que é a carne de bochecha de porco curada. Temos muitos queijos fortes, como o cazu marzu, que é feito com larvas de uma mosca (limpinha, tá? rsrsrsrs) lá da ilha, maturados em cavernbas. tem muita carne de caça, como javali, e até passarinhos. Até carne de cavalo fazemos na brasa.
Outra coisa muito popular, que assim como o pecorino está sobre a mesa em todas as refeições, o tempo todo, é pane carasau, bem fininho e crocante.
Fazemos muitas conservas, de legumes, geleias de frutas e também um peperoncino com atum, além de alici etc.
Famoz muitos pratos que na Itália chamamos de maremonti, ou seja, mar e montanha, misturando porco e cordeiro com pescados, muitas vezes usando massas, como a fregola, que são bolinhas de sêmola, nossa massa mais usadas, mas também temos um tipo de nhoque, massas recheadas e também de grano duro.
A gente realmente ama a comida, o vinhos, a cozinha, e gostamos de reunir a família e os amigos para comer, e passar o dia na cozinha.
Faz tempo que você não nos visita. Apareça, temos lançado vários menus temáticos, estamos sempre com novidades. Felizmente a casa tem andado cheia, mesmo nesses tempos complicados.
Lançamos nossa cerveja recentemente, e importamos alguns vinhos e produtos típicos da Sardenha. Estamos abrindo em breva, na frente do restaurante, uma lojinha, com esses produtos, além de pães, doces e sorvetes, de nossa produção própria. Tenho feito, por exemplo, o pane carasau, e tem sido um sucesso com o público.
Bem, resumindo é isso.
Precisando de mais informações, estamos à dispoição.
Obrigado pelo interesse, uma de minhas missões é divulgar a cultura alimentar da Sardenha, essa chamada “dieta mediterrânea” que faz do povo sardo um dos mais longemos do mundo, com muita gente que passa dos 100 anos, e temos um trabalho cientifícico muito interessante sobre isso.
São três ilhas no mundo com o povo mais longevo do planeta: a Sardenha, uma ilha grega cujo nome não me lembro, e outra no Japão, acho que Okinawa. E a dieta é muito importante para isso.
Espero ter ajudado.
Grazie.”

 

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