Vinho da Semana: Quinta de Linhares Azal – E mais uma seleção do Minho, com 11 grandes produtores de Vinhos Verdes

Os vinhos de Vasco Croft estão entre os melhores de Portugal, como esse delicioso Vinhã – Reprodução do site https://aphros-wine.com/

Experimente um vinho verde tinto com uma bela feijoada, um prato que não se entrosa muito facilmente com a bebida. Também fica ótimo com um leitão à moda da Bairrada, ou o nosso pururuca, tanto faz. É um dos poucos capazes de encarar a lampreia, especialidade lusitana apreciada por muitos, temida por outros tantos.

Os vinhos verdes brancos são versáteis. Deliciosos aperitivos, nas suas gamas mais simples, servidos geladinhos, são sempre uma excelente escolha para peixes e frutos do mar. Sua acidez gritante, e em alguns casos o teor frisante das leves borbulhas, se encaixam perfeitamente com mariscos e crustáceos, e com os peixes – de preferência os mais gordos.

Temos ainda os rosados, e fazia algum tempo que eu não bebia um ícone do gênero, o Mateus Rosé. O fiz em um excelente almoço no Olympe, e foi um aperitivo à altura do local – depois passeamos pelos vinhos da Casa Ferreira, também da Sogrape – grupo dono da marca Mateus, entre as mais de 15 que compõem seu vasto portfólio. Esse é um vinho que se entrosa muito bem com peixes e frutos do mar: gosto principalmente com atum, sardinha, camarões, lagostins e outros crustáceos. Casal Garcia cumpre o mesmo papel, dignamente, com seus dois brancos e um rosado. Nos dois casos, são vinhos que podem ser  facilmente encontrados entre R$ 42 e R$ 50, em sites.

Fora isso tudo, os vinhos verdes são a cara do Rio e do Brasil não só pelo frescor, mas também pelos laços que mantemos com Portugal – especialmente o Norte, de onde veio grande parte dos imigrantes no século passado. Na casa de meus avós sempre tinha Calamares e Mateus Rosé, e essas garrafas bojudas eram as que guardavam água na geladeira, e iam até a mesa nos almoços de domingo. Tem um simbolismo para mim, assim como para muita gente.

Vinhedo de Anselmo Mendes, um dos grandes enólogos de Portugal – Reprodução do site http://www.anselmomendes.pt

A coisa também pode ficar muito séria quando falamos de vinhos verdes – nem tudo é descontração nesta denominação histórica e de características únicas no mundo. Temos alguns produtores que fazem vinhos de altíssimo nível, principalmente com a casta Alvarinho, mas a Loureiro vem se destacando imensamente nos últimos anos. No primeiro caso podemos destacar o trabalho fantástico que faz Anselmo Mendes, o grande nome do Alvarinho português.  Sua linha toda é fantástica, dos mais leves, como os rótulos Muros Antigos, até os mais maduros, encorpados e com passagem em barrica, como Muros de Melgaço, Alvarinho Parcela Única e Curtimenta – três dos grandes vinhos brancos de Portugal (importados pela Decanter).

Quando o assunto é a uva Loureiro a Quinta do Ameal, que planta principalmente esta casta, talvez seja a principal referência (da Qualimpor). São vinhos puros e frescos, límpidos, sempre florais e cítricos – como outros do sua região, ótimas companhias para peixes e frutos do mar. Outro produtor de excelência com esta casta é a Quinta de Gomariz (da Decanter).

Soalheiro, ícone da uva Alvarinho – Foto de Bruno Agostini

Soalheiro é outro vinho que adoro, corte de Loureiro e Alvarinho, que está no topo da lista dos grandes nomes da região dos Vinhos Verdes. Do mesmo modo, são vinhos de alto nível os produzidos pelo Palácio da Brejoeira (da Vinci), um dos primeiros produtores a apostar no imenso potencial da Alvarinho, uma uva que vem se destacando em todo o mundo, incluindo o Brasil. Faz um estilo mais inspirado na vizinha região da Galícia, onde a casta tem o nome de Albariño e que dá origem a vinhos excepcionais.

Portal do Fidalgo, outro produtor de referência – Foto de Bruno Agostini

Ainda quando o assunto é Alvarinho, Deu-La-Deu (cerca de R$ 115, em sites) e Portal do Fidalgo (gosto demais desses vinhos, também cerca de R$ 120 em sites)são outros dois nomes de referência, produtores de grandes vinhos.

Ainda não importado para o Brasil, fica uma dica de um grande produtor, e vale procurar por ele quando for a Portugal: trata-se do Casal de Morgade, onde é possível se hospedar na bela propriedade.

Fora esses, outro trabalho admirável nesta região é feito por Vasco Croft, da Aphros Wine, um desses gênios da enologia, biodinâmico e autor de vinhos incríveis, e muito particulares. Explorando especialmente as castas Loureiro e Vinhão, ele é dos produtores de que mais gosto atualmente – e digo isso considerando o mundo inteiro. Que vinhos esse cara faz, meus senhores, que vinhos! São encontrados no site www.winelovers.com.br (entre R$ 122 e R$ 251).

Mas o vinho da semana é um exemplar produzido com uma casta que está em alta na região: Azal, e imagino que nunca tenhas ouvido falar. Assim como aconteceu com a Alvarinho a partir dos anos 1980, e com a Loureiro, nos últimos 15 anos, os vinhos feitos com uma só casta, geralmente de apenas uma quinta, são o que há de melhor na região dos Vinhos Verdes (na média, porque há muitas exceções).

Um ainda raro vinho feito 100% com a uva Azal – Foto de Bruno Agostini

Recentemente provei pela primeira vez – que me lembre – um vinho varietal feito com a Azal. Foi o Quinta de Linhares, que me apresentou um vinho branco do jeito que eu gosto: equilibrado, com frescor e acidez, e um perfil gastronômico variado – gosto com peixes e frutos do mar, mas também com porco e aves (galinha d’angola, codorna, galeto, frango). Também fazem um monocasta com a uva Avesso, que tem esse nome “porque faz tudo ao contrário”, explicam (adoro os nomes portugueses). Ultimamente os produtores estão conseguindo domar essa uva, e fazer vinhos ótimos com ela. Fique de olho. É importado pela Prem1um, e custa R$ 100 com seu representante carioca, Duda Zagari (98102-1019).

Pra encerrar, fica uma dica: as aguardentes dessa região, destilados desses vinhos, estão entre os melhores do mundo, e há estoques imensos dessa bebida nas caves da área, e os exemplares mais envelhecidos são monumentais. Procure por eles – baratos não são, mas custam menos que concorrentes de peso, e do mesmo nível, como grandes Cognacs e Armagnacs, e outros brandies de uma maneira geral, além dos melhores uísques.

Tem muita gente que ainda acha que os vinhos verdes são bobos e simples. Estão muito enganados, como se vê. Além de únicos e excelentes companheiros da boa mesa – afinal, isso é o que todo vinho deve ser – os vinhos verdes alcançam uma gama de estilos rara de se ver: dos brancos leves e refrescantes aos encorpados, dos levemente frisantes aos rosados descontraídos, até chegar aos tintos de personalidade fortes, com sua acidez latente e taninos fortes, que até pouco tempo poderíamos classificar de imbebíveis, mas que através do trabalho de nomes como o já citado Vasco Croft, alcançaram alto nível em alguns casos.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *