Os melhores sanduíches do (meu) mundo: do lampredotto ao ostrix

O Estadão publicou recentemente uma ótima reportagem sobre sanduíches. Eles listam “Os melhores sanduíches do mundo: história e receitas de 15 clássicos”. Uma boa seleção, claro. E me fez lembrar do que talvez tenha sido o melhor sanduíche de toda a vida. O lampredotto, que experimentei em Florença. Nada menos que magnífico cozido de tripas bovinas, até quase se desmancharem, para comer com salva verde e molho de pimenta. Um acontecimento.

Burger de cordeiro: um dos pratos mais famosos do Breslin – Foto de Bruno Agostini

Daí, eu me lembrei de outro sanduíche fantástico, pela sua simplicidade: o burger de cordeiro com feta e cebola roxa, que devorei em um brunch no Breslin, em Nova York.

A pajata da trattoria Armando Al Pantheon – Foto de Bruno Agostini

Neste difícil exercício de me lembrar os melhores sanduíches da vida, me veio à mente outro representante italiano, feito com partes de muitos consideram menos nobres: no caso, o “linguaccia romanista”, que foi assim definido pela amiga Cristiana Beltrão, com quem compartilhei aquela mesa, em seu blog: “A linguaccia, uma brincadeira que quer dizer algo como “tagarela”, veio lindamente representada por esse tozzetto com favas. O untuoso guanciale fazia o papel de “língua” de fora. O espocar das favas na boca e o pão quentinho apaziguaram a minha gula e me fizeram esquecer da coluna que resmungava”. Onde comi também um  quase sanduíche: a pajata, que vem a ser o intestino do cordeiro jovem (mamão), cujo leite talha, virando uma espécie de iogurte (iguaria rara e de temporada, encontrada em boas casas de Roma, como Armando al Pantheon). Servido com torradas.

Bun de porco do Momofuku Noodle Bar – Foto de Bruno Agostini

No quesito burger, aí a batalha é uma dureza. Tendo a ficar com o do J.G. Melon, também em Nova York, uma versão smash, com ótimo queijo e pão adequado. E ainda tem o clima. Fantástico. Nova York é fogo: lembrei do ban de barriga de porco do Momofuku Noodle Bar (e o de camarão também!!!).

Um smörgåsbord de camarão, lagosta e ovo, no restaurante Ida Davidsen, em Copenhague – Foto de Bruno Agostini

Poderia citar a francesinha do Capa Preta, na cidade do Porto, ou algum smørrebrød saboreado em Copenhague, entre tantas divinas combinações de pescados, ovos, ovas, camarões e verduras, sobre pães de profundo sabor.

O sanduíche de peameal bacon, tradicional de Toronto – Foto de Bruno Agostini

Sem esquecer, jamais, do épico café da manhã em Toronto, ao sabor do famoso sanduíche de peameal bacon (leia mais aqui).

Daí, lembrei de antológicos benedict eggs (não deixam de ser sanduíches abertos) em grandes hotéis, ou mesmo o excelente preparado no Empório Jardim. Dos cachorro-quentes alemães. Entre os estrangeiros, não deveria faltar um belo sanduba de arenque, nas ruas de Amsterdã. Tem muita coisa, minha lista difere muito.

O ostrix do Pipo, e o sonho de bacalhau, ao fundo: Bronze é especialista no assunto – Foto de Bruno Agostini

Mas então prefiro regressar ao Brasil, e o primeiro sanduíche que me vem à mente é o ostrix, um dos meus pratos preferidos da lavra de Felipe Bronze (não estou certo do menu atual, mas havia majestosos sanduíches de cavaquinha e uma versão em homenagem ao Cervantes, de porco com abacaxi, fora o sonho de bacalhau…). Aliás, o Bronze é um grande especialista em sanduíche, e há anos faz alguns dos melhores, e nos menus do Oro sempre há uma ou duas versões (excelentes, por sinal).

Duplinha de barriga de porco empanada do Malta Beef Club – Foto de Bruno Agostini

E depois o burger do Malta Beef Club (ali também recomendo o Malta Fried Chicken, e experimente pedir o milanesa com tonkatsu de maçã verde em forma de sanduíche). Outro preferido? E ainda tem a duplinha de barriga de porco empanada no pão de milho, com maionese de sriracha, picles de cebola roxa e alface. Louvável criação do Marcelo Malta, o maestro das carnes, Pat LaFrieda do Rio.

Já nasceu clássica a versão nipo-suína do Botero – Foto de Bruno Agostini

Os sanduíches do Botero: versão mini de barriga de porco curada, envolta na farinha panko, e servida com maionese de hoisin e salada thai. SENSACIONAL.

Entre os mais cariocas, me vem á cabeça logo algo muito simples: o natural de galinha ao curry, do Polis Sucos. Acho impecável. Pão tostado, recheio generoso, na quantidade certa, muito saboroso e bem temperado. Com suco de tutti-frutti, como desde criança. E sinto saudades do Gordon.

São esses os meus sanduíches preferidos, e os seus?

Falando nisso, tá rolando Burger Fest. Escolhemos os mais apetitosos (para ver a lista, clique aqui).

———————————ENTRE ESTRELAS MICHELIN E UM SANDUÍCHE DE TRIPAS——————————–

Certa vez fiz uma viagem de sonhos pela Itália. Passei uns dez dias no Piemonte, na temporada das trufas, e me esbaldei. Fui a pelo menos meia dúzias de restaurantes com estrelas Michelin, como La Ciau del Tornavento, em Treiso; Guido Ristorante (no hotel Villa Contessa Rosa Fontanafredda), em Serralunga d’Alba; Ristorante Christian & Manuel (no hotel Cinzia), em Vercelli Vintage 1997, em Turim; Villa Crespi, em Orta San Giulio (Lago d’Horta), entre outros, e mais um punhado de casas sem distinções estelares do guia rouge francês, mas também excelentes, como o Bovio e, principalmente, a Trattoria della Posta, onde fiz duas refeições não menos que memoráveis, regadas a Barolos antigos, e Barbarescos, idem.
O Piemonte é, para mim, o melhor lugar do mundo para se comer. As trufas, as massas caseiras (e viva o ravióli dal plin), os pães, os queijos e embutidos, as carnes curadas, o gado fassona, os risotos… E mais os vinhos locais, entre os meus preferidos.
De lá, estiquei até Florença, e a região de Chianti, para mais alguns dias de puro deleite nababesco. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas foi um investimento pesado. Uma refeição dessas não sai por menos de 100 euros, com vinhos, podendo chegar a 300. Não é moleza, não. (Para ler uma reportagem sobre a região do Piemonte, clique aqui; e para uma outra, a respeito de comidas tradicionais de Florença e Roma, clique aqui).
O que quero dizer com isso é que grandes restaurantes, premiados, com estrelas Michelin e outros louros, são mesmo espetaculares, experiências que podemos levar pelo resto de nossas vidas. Verdade. Mas, muitas vezes, encontramos prazeres tão imensos em lugares simples, que nos ajudam a tatear melhor a alma de um lugar, através da comida de seus moradores. Passeei por diversos restaurantes fantásticos, lindos e elegantes, com serviço impecável, mas posso dizer com convicção que uma das melhores coisas que provei durante esses 20 dias de esbória italiana foi um singelo sanduíche, chamado de lampredotto, típico das ruas da cidade que foi berço do Renascimento. Há várias barraquinhas pelas ruas da cidade. Recebi a recomendação enfática de um amigo, o Alexandre Bronzatto, italianófilo de carteirinha, um dos grandes conhecimentos da gastronomia e dos vinhos do país (ele que me recomendou boa parte dos restaurantes citados acima). “Você que gosta de miúdos, tem que provar o lampredotto do Pollini”.

O sanduíche é tradicional nas ruas de Florença, e o Pollini tem fama de ser o melhor – Foto de Bruno Agostini

 

O sanduíche consiste em uma parte do estômago bovino, cozida lentamente, em molho bem temperado, com base de tomate. A carne fica macia, e com sabor deliciosamente untuoso. Antes de servir, o atendente pergunta se o comensal quer que ele lambuze o pão no tal molho onde cozinha a carne (TEM QUE DEIXAR ELE FAZER). Depois, o recheio é regado com molhos de ervas e de pimentas, um verde e outro vermelho. E sabe quanto custa? Uns dois ou três euros…
Um acontecimento gastronômico, uma experiência incrível de observação antropológica. Vi um pintor de paredes todo sujo de tinta comendo dois em seguida, com dois copinhos de vinho (de plástico). Ao seu lado, uma senhotinha elegante pediu dois, um para ela, outra para a netinha que estava no carrinho, de uns cinco anos (com piementa e tudo). Havia toda a sorte de florentinos, jovens, idosos, mulheres, homens, grupos de amigos, comensais solitários, gente simples, gente rica. Turista, aparentemente, apenas eu. Foi realmente um dos momentos mais incríveis de minha viagem.
E anda tem copo de Chianti por menos de um euro…
No mais, obrigado, amigo Bronza.

Sergio Pollini Lampredotto: Via dei Macci, 126, 50122 Florença, Itália.
Para a página do trailer no Trip Advisor, clique aqui.
Para a página do Trippaio Pollini no Facebook, clique aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *