Vinho da Semana: Bob & Martina, um irreverente e delicioso Barolo

Bob & Martina: um Barolo mais jovem e descontraído, mas sem perder a indentidada local: R$ 480 na carta do novo Irajá – Foto de Bruno Agostini©

BAROLISTA.
Substantivo de dois gêneros Pessoa que produz Barolo, ou apreciadores deste vinho.Sou desses.

Entre todas as denominações de vinho que existem no mundo, Barolo está entre as minhas preferidas – talvez seja mesmo a de que mais gosto. Seus produtores são orgulhosos do que colocam nas garrafas. O nome desta pequena vila medieval, no Piemonte, ilustra todos os rótulos desta D.O.C.G., indicando sua procedência.

Mas, como toda a regra, há pelo menos uma exceção. E, como sempre acontece, minha amiga Julieta Carrizzo, sommelière do Grupo Irajá, me apresentou um raro, diferente e sensacional exemplar.

Foi há algumas semanas, numa inesquecível visita ao Galeto Rainha, no Leblon, quando comi o melhor polvo que sou capaz de lembrar. Era o Bob & Martina 2015, produzido por Enzo Boglietti, que já ganhou lugar cativo em minha galeria de vinhos mais queridos.

– Na nova carta de vinhos do Irajá, eu dividi a lista entre Clássicos e Inovadores. Apesar de ser um Barolo, eu coloquei este vinho na seção de Inovadores. Porque, embora este seja um produtor famoso na região, ele produz este vinho sem barrica. Exatamente porque ele queria fazer um vinho para o dia-a-dia, com a mesma estrutura, mas sem tanta potência. Daí ele faz essa brincadeira: “Este é meu Barolo vira-lata”, costuma dizer Enzo Boglietti, que só usa a palavra Barolo no contra-rótulo. Por isso, o nome é Bob e Martina, os dois cachorros dele. É um vinho excelente, mais fresco. O único problema dele é que a gente não precisa ficar esperando a ocasião para beber um Barolo, a gente pode beber todo dia. Esse vinho só vem pro Brasil, foi um pedido pessoal do importador ao Enzo e nós só temos a agradece – diz Julieta, que também está representando no Rio os vinhos da MondoRosso, que traz este vinho para o Brasil, importadora especializada em rótulos italianos, de pequenos produtores artesanais, e cujo portfólio merece ser conhecido.

O vinho é realmente fantástico. Produzido por Enzo Boglietti, que tem 22 hectares de vinhedos, onde produz 100 mil garrafas por ano, tem tudo o que se espera de um grande Barolo, mas se mostra mais jovem e descontraído. Tem notas calcárias, que lembram giz, e outras terrosas, herbáceas e florestais, remetendo àqueles bosques piemonteses onde crescem as famosas trufas brancas de Alba. Não falta boa fruta, nem muito fresca ou demasiadamente madura. Amoras negras e ameixas predominam. Tem acidez sedutora, eletrizante e alguns aromas meio florais, de rosas e violetas, e taninos firmes, elegantes e com presença. Complexo é uma boa definição: encontrei, ainda, um pouco de especiarias, alcaçuz e também um toque balsâmico. Abri o vinho em casa, num almoço dominical, e precisei de certo controle para não enxugar a garrafa rapidamente, de tão fácil que é beber este vinho. Fiz bem. Quanto mais o tempo passou, numa tarde fria e ensolarada na serra, melhor ficava o vinho. Assei um pato. Fiz patê de miúdos. Havia gorgonzola, grana padano e geleia portuguesa de figo com nozes. Foi uma farra, uma alegria, um delírio. Ficava cheirando a taça. Observando sua bela cor. O único problema foi que estava sozinho naquele dia, e queria ter dividido o Bob & Martina com alguém. Fica o convite…

 

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