#TBT 2: Um flâneur gourmet em Paris (Parte 2)*

Dispensa legenda – Foto de Bruno Agostini©

Quando o assunto são compras em Paris, logo vem à cabeça a imagem de uma grande loja de departamentos, os grands magasins, como dizem os franceses. Podem ser as Galerias Lafayette ou o Bon Marché, para ficar só nos mais famosos – e charmosos. Para os interessados em comida, esses dois clássicos endereços franceses também são mais que obrigatórios no roteiro.

La Grande Epicerie de Paris: fundamental neste roteiro guloso – Foto de Bruno Agostini©

No coração de Saint-Germain-de-Prés, o Bon Marché foi a primeira loja de departamentos da França, inaugurada em 1838. Tão importante é o setor de comida e bebida, que tem nome próprio, quase tão famoso quanto o da marca mãe. Para um gourmet, visitar a La Grande Epicerie de Paris é mais importante do que ver a Torre Eiffel ou o Arco do Triunfo.

No térreo de um dos dois prédios do Bon Marché, a Grande Epicerie é como um supermercado, mas só de delícias. É ali que os parisienses mais abastados fazem as suas compras do dia a dia. As prateleiras exibem tudo o que há de melhor, não somente na França, mas no mundo. No total, são mais de 30 mil itens.

O objetivo dos compradores é descobrir os melhores produtos do planeta, buscando pequenos produtores de artigos finos, como queijos, e as melhores e mais famosas marcas do mundo. Seguindo essa filosofia é possível encontrar nas prateleiras frutas brasileiras, chás indianos, massas italianas, cervejas tchecas e o que mais se possa imaginar no universo dos sabores. A oferta de itens de luxo, como foie gras, trufas em mil variações (tem até maionese) e caviar, é alucinante. A quantidade de itens com o fígado gordo de pato é inacreditável: parei de contar quando estava perto de 100 euros.

A  loja icônica e deliciosa da marca Hédiard – Foto de Bruno Agostini©

Da mesma maneira, também chega a ser desconcertante a seleção de queijos, embutidos e azeites de diversas partes da Europa. Na área de conservas é possível encontrar produtos de famosas grifes gastronômicas da França, como Hédiard, Fauchon, Maison de la Truffe, e La Tour d’Argent – dá para trazer para comprar o famoso pato com laranja, por exemplo). Não poderia faltar uma ótima seleção de vinhos, com direito a pequenas provas e promoções-relâmpago que podem fazer valer a visita. E na Grande Epicerie, nem tudo é tradição. Há uma seção dedicada à gastronomia molecular, vendendo produtos para o cozinheiro amador tentar reproduzir em casa as espumas, esferificações e outras ousadias de chefs vanguardistas como o espanhol Ferran Adrià.

Que tal um piquenique às margens do rio Sena, na Île Saint-Louis? – Foto de Bruno Agostini©Comprar ali os itens para um piquenique é garantia de felicidade. Há cestinhas prontas para isso. Pode-se escolher algum dos pães (ótimos, por sinal) produzidos ali, uns queijos e frios, umas geleias e pronto: está montada a lancheira. Quem quiser pode dar uma incrementada na seção de comida pronta. Nos refrigeradores de vidro uma seleção deliciosa varia regularmente, com quiches, sanduíches e pratos dignos de serem assinados por chefs estrelados, como o delicado sablet de vieiras. Muita gente que trabalha naquela área aproveita para comer ali, o que congestiona essa parte da loja na hora do almoço.

Não menos impressionante é o setor dedicado aos comes e bebes das Galerias Lafayette, a mais famosa loja de Paris e a preferida dos turistas. A exemplo da Grande Epicerie, há uma boa variedade de pratos prontos, que podem ser comprados para animar um piquenique.

Galeries Lafayette: vá nem que seja só para espirar o prédio histórico – Foto de Bruno Agostini

A seleção de produtos gastronômicos é capaz de fazer qualquer gourmet perder a noção da hora – ainda mais se ele for apreciador de vinhos, porque foi inaugurado há pouco mais de um mês a Bordeauxthèque, dedicada apenas às garrafas dessa região.

Joia engarrafada: a mais linda das garrafas de bebida do mundo – Foto de Bruno Agostini©

A seção de bebidas tem coisas raras, como um conhaque Louis XIII que custa inacreditáveis 22 mil (parte do preço vem da garrafa de cristal “pérola negra” da Baccarat). Nas prateleiras, alguns produtos podem até confundir, como o azeite que mais parece perfume, porque vem em frasco com spray, ou a garrafa de Coca-Cola projetada por Karl Lagerfeld, por 49 euros.

Não deve haver nada parecido em qualquer outra parte do planeta. Inaugurada há pouco mais de dez anos dentro da Lafayette Gourmet, a Bordeauxthèque tem a mais impressionante coleção de vinhos já vista numa loja.

O champanhe no bar especializado e a cúpula monumental – Foto de Bruno Agostini©

São 250 metros quadrados inteiramente dedicados a Bordeaux, onde descansam cerca de 12 mil garrafas de 250 produtores diferentes. Mais impressionante do que o tamanho, é a seleção de rótulos: todos os melhores produtores desta que é a principal região vinícola da França estão ali representados com muitas e raras safras.

– Geralmente, só em leilões encontramos esses vinhos mais antigos. E, muitas vezes, a procedência é duvidosa, há risco de falsificação e mesmo de a bebida estar estragada por armazenamento inadequado. Mas nós fizemos uma grande parceria com os principais produtores de Bordeaux, que nos permite vender vinhos muito difíceis de se achar – diz Jean-Rémy Porlier, diretor da enoteca.

É ouro! A impressionante coleção de Château d’Yquen, nas Galeries Lafayette – Foto de Bruno Agostini©

Os maiores nomes aparecem com destaque, em nichos especiais: Lafite-Rothschild, Latour, Margaux, Mouton-Rothschild, Haut-Brion, Cheval-Blanc e Petrus. São 32 safras de cada um desses vinhos. O mítico Chateau d’Yquem fica no centro desta sala, disponível em 50 safras diferentes, a mais antiga a de 1899. Aliás, todos esses vinhos aparecem quase sempre em suas melhores safras históricas: tem, entre outras raridades, Mouton-Rothschild 1945 ( 20 mil), Cheval Blanc 1947 ( 13,5 mil) e Petrus 1982 ( 8 mil).

A loja virou também um ótimo lugar para comprar os melhores vinhos de Bordeaux no sistema conhecido como “En Primeur”, no qual o comprador adquire um lote com antecedência. Ali é possível reservar a “Bordeauxthèque Collection”, com os rótulos mais caros das região (os Grand Crus Classés) reunidos numa caixa de madeira. E, claro, como em outras lojas de vinho na França, há também garrafas mais simples a partir de 3,90 euros.

Poderia muito bem haver placas de advertência espalhadas na rua: “Cuidado: a Place de la Madeleine vicia, custa caro e engorda”. A praça adjacente à igreja de Santa Maria Madalena é um perigo para qualquer apreciador de gastronomia. Primeiro, você vai querer voltar lá todos os dias da sua viagem. Segundo, é uma séria ameaça à silhueta: o que dizer daquelas seleções de foie gras, chocolates, doces? E, em terceiro lugar, é um risco para a sua saúde financeira: como custam caro as coisas ali. Não importa. É preciso passar ao menos uma tarde, pulando de loja em loja, provando as delícias e enchendo as sacolas.

O bar da Fauchon – Foto de Bruno Agostini©

A Fauchon é a mais conhecida de todas elas, com seus dez mil itens gastronômicos de alta qualidade. O subsolo é uma ótima parada para uma refeição rápida. Mas, além da falta de educação dos funcionários, é um território mais de turistas, com destaque para a presença maciça de brasileiros e japoneses. Os parisienses preferem mesmo a quase vizinha Hédiard, fundada em 1854, com uma admirável seleção de produtos e um serviço mais delicado e elegante. Seus biscoitos são de parar o trânsito da Champs-Élysées.

Nobre vizinhança na Place de la Madeleine – Foto de Bruno Agostini©

Bem ao lado da Hédiard fica a Maison de la Truffe, especializada nesta rara e cara iguaria, além de outras boas companhias para ela, como foie gras, caviar… Outra atração gastronômica é uma filial da Marriage Frères, talvez a mais famosa loja de chás do mundo, com uma seleção de blends espetacular. E a lista de endereços saborosos continua nos arredores da praça com outros medalhões, como a Ladurée, no número 16 da Rue Royale.

Melhor deslocamento em Paris: caminhando (melhor cidade do mundo para isso) ou de metrô – Foto de Bruno Agostini©

SERVIÇO:
La Grande Epicerie: 38 Rue de Sèvres, Saint Germain-des-Prés (metrô Vaneau). Tel. (01) 4439-8100. www.lagrandeepicerie.fr
Lafayette Gourmet: 40 Boulevard Haussmann, Ópera (metrô Chaussée d’Antin La Fayette). Tel. (01) 4282-3456. www.galerieslafayette.com
Fauchon: 26 Place de la Madeleine. Tel. (01) 7039-3800. www.fauchon.com
Hédiard: 21 Place de la Madeleine. Tel. (01) 4312-8888. www.hediard.fr
Maison de la Truffe: 19 Place de la Madeleine. Tel. ( 01) 4265-5322. www.maison-de-la-truffe.com
Marriage Frères: 17 Place de la Madeleine. Tel. (01) 4268-1854. www.mariagefreres.com

(Texto de 2010, escrito para a revista Boa Viagem).

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2 commentários
  1. Parabéns pelo post. Muito bom. Saudade de um tempo que passou. Ainda tenho uma garrafa (tem menos que a metade) de um vinagre de cidra da marca Fauchon, comprada na Casa Santa Luzia (alameda Lorena 1471, jardim paulista SP). Talvez a melhor loja do Brasil no gênero

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