Vinho da semana: Sonrojo Rosé 2016

O Sonrojo Rosé 2016: R$ 95,90 – Foto de Bruno Agostini

Dentre tantos clichês que habitam o mundo do vinho, tem um que eu particularmente não gosto nada: “vinho bom para a piscina”.

Em primeiro lugar porque não entendo o que significa. É para lavar a piscina? Usar em vez de cloro? Ou é para beber dentro dela, ou ao redor?

Isso quer dizer o que? Que deve ser um vinho refrescante e barato, leve e “divertido”? Ou pode ser um vinho de alta categoria, como um grande Champanhe, um Meursault especial ou um rosé da Provence de boa cepa, desde que não seja um tinto “porque não combina com piscina”? Ah, quem sabe um tinto levinho, pouco alcoólico e encorpado? Porto, só se for em forma de coquetel.

Quem mais sofre com esse clichê é o vinho rosé. Já se vão quase 20 anos que leio e escrevo sobre o assunto, e todos os anos, quando chega novembro e dezembro começam a pipocar as reportagens que revelam a pouca imaginação dos pauteiros. “Este será o verão do rosé: finalmente o preconceito acabou, e selecionamos 10 rótulos para você beber na beira na piscina, na praia, no barco”. Aposto que você já leu umas duas ou três dessas nas últimas semanas, se acompanha o tema. Mas é mentira. Primeiro, porque ainda há preconceito (“vinho de piscina é uma forma disso”). Segundo, porque não tem essa de “verão do rosé”, porque nenhum foi ou vai ser, como também nunca houve ou haverá “verão do espumante”.

Pois toda essa introdução é para dizer que NÃO existe “vinho de piscina”. Mas, se houvesse um rótulo próprio para os dias de verão (eu também beberia no inverno siberiano), que não é caro, tem personalidade e é refrescante e suculento, excelente parceiro de comida (saladas, pescados, receitas leves e picantes, em especial asiáticas), esse vinho é o Sonrojo Rosé.

A sua linda coloração chama a atenção de cara, pois nem segue o estilo provençal, bem claro, “casca de cebola” nem tampouco se parece com exemplares mais rústicos e pouco aconselháveis, muito escuros e concentrados, muitas vezes resultado da mistura de tintos com brancos (infelizmente prática bem difundida por aí). Tem um tom avermelhado raro de se ver, bem extraído, mas ao mesmo tempo límpido e pouco opaco, que lembra chá de hibisco mais do que vinho.

Produzido pela bodega La Calandria, da região de Navarra, que segue agricultura orgânica e faz vinificações naturais, o Sonrojo Rosé talvez seja o vinho que eu provei na vida cujo sabor mais se aproxima de um suco de frutas (vermelhas: morango, framboesa e cereja, principalmente, além de maçã vermelha com casca) recém-preparado, fresco, saboroso, cheio de acidez e vivacidade. Uma alegria. Quando você olha, pronto: a garrafa (deixe no balde de gelo) acabou. Pior. Você quer outra, e como não se trata de um vinho desses que achamos na loja da esquina (melhor comprar pela internet), dá uma tristeza, caso não haja outra no estoque.

Este é um 100% Grenache, uva tradicional na elaboração de rosados, e Navarra, assim como a Provence, tem tradição nesta seara enológica. Não é um vinho para se guardar, mas para se ter sempre na adega ou na geladeira.

Longe de ser um vinho bobo, esse marcante ataque frutado, que envolve o nariz e a boca, sendo deliciosamente saboroso, é só o cartão de visitas. O vinho tem frescor, acidez e equilíbrio, é seco, perfumado e no paladar sentimos não só algumas notas cítricas mas sabor um sabor ligeiramente salino e mineral como pano de fundo. É pura energia, suculência. Mas consegue ser leve, e seus 13% nem são percebidos, mesmo quando deixamos o vinho esquentar um pouco (tente manter ele entre 9 e 13 °C). Um vinho que eu já conhecia, que já gostava, mas que quando provei no último final de semana, abrindo a garrafa por volta das 13h, me chamou ainda mais a atenção. Ajudou a aplacar o calor inclemente.

E preciso confessar: bebi à beira da piscina (inflável)…

SERVIÇO
Sonrojo Rosé: Pode ser encontrado em restaurantes especializados em vinhos naturais, como a Enoteca Saint VinSaint, em São Paulo, e no Cru Wine Bar, em Botafogo, no Rio, além de lojas virtuais, como a North Wine (R$ 95,90, safra 2015). 

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