Lilia Restaurante: o equilíbrio entre o ácido e o amargo na cozinha refrescante e de alto nível do chef Lúcio Vieira

Atum, coalhada, azeite, cogumelos, azeitonas pretas e brotos de mostarda: frescor, leveza e equilíbrio – Foto de Bruno Agostini®

Quando trabalhava no JB, na Avenida Rio Branco, eu cultivava o hábito de, pelo menos uma vez por mês, almoçar no Eça, o melhor restaurante a curta caminhada. Geralmente fazia isso na semana do pagamento, a partir do momento em que o salário se tornou suficiente para autoafagos do tipo.

Sinto saudades de trabalhar no Centro, pela oferta de restaurantes tradicionais e de equipamentos culturais, e da boemia típica das saídas pós-expediente. Sambinhas na Lapa, chopes nos bares Luiz e Brasil, cabrito no Capela e outros clássicos notívagos do Rio. Sinto falta também da cozinha do Frédèric de Meyer, este belga que é dos maiores talentos de nossa gastronomia, do ambiente elegante e do serviço impecável do Eça. Se pudesse, iria toda semana, mas era um programa relativamente caro, embora imensamente recompensador.
Lembrei desses momentos gastronômicos no Centro porque ontem voltei ao Lilia Restaurante, naquele eixo histórico do Rio Antigo, instalado em dois andares de um sobrado tombado (se não é, deveria ser).
Sai, tentação!: o irresistível pão do couvert, para lambuzar com manteiga – Foto de Bruno Agostini®
Se trabalhasse no Centro, seria meu restaurante preferido para uma refeição dessas que nos damos de presente.
Só que daria para ir todas as semanas. Porque os R$ 98 do preço inicial do chef Lucio Vieira compensam demais. (Aos sábados, custa R$ 92 e há, ainda, uma degustação, a R$ 350, sob consulta).
“Stairway to Heaven”: a escadaria para o Paraíso no Centro – Foto de Bruno Agostini®
Num trabalho de ajuste fino de sabores, os pratos que saem dessa cozinha mostram equilíbrio e frescor.
São coloridos, São certamente receitas felizes, de perfil autoral, que tratam folhas, saladas e os molhos com notável acidez como fio condutor, em contraponto aos bem colocados amargores de brotos, e do uso inteligente das gorduras e proteínas. Há leveza, beleza e alegria naquelas mesas.
Carne cruda, bem cortada e delicadamente temperada – Foto de Bruno Agostini®
A carne cruda, como o nome indica, tem inspiração italiana, com corte em cubos, nem muito grandes nem muito pequenos. Um molho cítrico, pedacinhos de cebola e um vegetal vermelho que parecia uma pimenta, em dose moderada, envolve a carne, e brotinhos amargos dão volume formosura à cumbuca.
Fazia calor lá fora, do lado de dentro o ar refrigerava, e um Vinho Verde rosado cumpria seu papel de ajudar s comida a brilhar ainda mais: sim, falo do Guigas, este coringa à mesa.
A veg-polenta faz o milho verde brilhar ao lado dos cogumelos: simplicidade e inteligência na criação dos pratos é a marca do chef – Foto de Bruno Agostini®
Acabei pedindo o prato chamado veg-polenta grelhada, por sugestão do amigo que me acompanhava  Jorge Passarelli. Havia naquele bosque cogumelos crus, escondidos sob crocantes, quase picantes e amargas folhas de couve,  incrivelmente frescas. Novamente a acidez dos limões realça e abraça todos os sabores. Dá grandeza ao conjunto, vivacidade e exuberância. Havia uma poça com cremoso molho de cogumelos, lisinho e bem coado, em textura acolhedora, e rico sabor. Um bloco alto de polenta tinha um manto esparramado de milho verde envolvido por requeijão. Tudo em harmonia, em comunhão. Digno de missa em louvor. Orei silenciosamente em agradecimento. Divino é bom adjetivo.
Vale um repeteco do vistoso prato: memorável – Foto de Bruno Agostini®
Pedi para comer outro principal, e este era um prato que já vinha observando, com desejo. O atum com coalhada, abobrinha ao pesto, azeitonas pretas e folhas de mostarda. De novo, a coloração variada dos ingredientes, com bonito jogo de volumes e texturas, resulta num prato leve, perfumado, fresco e jovem, desses que entram para sempre na nossa memória. Ainda por cima é bonito e visto, de visual marcante.
Os peixes ficam maturando na câmara fria, no meio do salão – Foto de Bruno Agostini®
Vale lembrar que o Lúcio Vieira foi o pioneiro na cura de pescados em câmara fria, antes de estar na moda a técnica, que desidrata a carne, mas preserva suculência e potencializa o sabor, como já contei neste dois posts: Ocyá e Sabor dos Águas.
Delicadeza em forma de café, chocolate e mel – Foto de Bruno Agostini®
Como não estava de bobeira, chutei o pau da barraca, estimulada pelo companheiro de almoço: fui na sugestão da garçonete, começando com o delicadíssimo mil folhas de café, com mousse de chocolate e caramelo de mel, sutilmente salgado – certamente das melhores sobremesas desta cidade. Aqui cabe lembrar que isso é legado do genial prodígio chamado Henrique Rossanelli, jovem e talentoso chef confeiteiro que trabalhou no Oro antes de passar uma temporada no Lilia, também o Café do CCBB (excelente também). O nível dos doces servidos ali, eles mesmos dizem, aumentou. Eu atesto a veracidade.
“Prova também a baba ao rum”, disse o amigo, como se fosse uma ordem.
Baba ao rum com morangos ao creme: memória infantis, ativar! – Foto de Bruno Agostini®
Mas é pra já. Com creme de chantilly impecável e morangos frescos, tem uma camada de doce de leite com frutas cristalizadas, e ativou memórias primaveris, até ingênuos e infantis. Com a doce maldade da hidratação alcoólica do destilado caribenho de garapa.
Um café coroou o generoso almoço. Me despeço, de novo, pensando em amargor e acidez, e no quanto é bom comer ali na casa do Lúcio.
#Vai por mim.
SERVIÇO
Lilia Restaurante: Rua do Senado 45, Sobrado, Lapa. Tel.: 3852-5423 e 21-98777-5660 (WhatsApp). Instagram: @lilia.restaurante. Pedidos, informações e reservas: https://linktr.ee/Liliarestaurante
O MENU DE ONTEM: 14/2/2022
O menu custa R$ 92, mas pode (e deve) ter acréscimos – Foto de Bruno Agostini®
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