Vinho da Semana: Compromisso, um Loureiro versátil e gastronômico que honra a tradição dos Vinhos Verdes

O Compromisso Loureiro 2020 (R$ 112, na Mercearia da Praça): fresco, frutado e floral – Foto de Bruno Agostini©

Foi a partir de uma prova de vinhos da Quinta do Ameal, e lá se vão uns dez anos, que eu comecei a observar com atenção e carinho a casta Loureiro, como outra grande representante do caráter dos Vinhos Verdes, junto com a disseminada Alvarinho.

A região úmida no norte atlântico de Portugal é menos valorizada do que merece, a meu ver. Seus vinhos têm admirável capacidade de se ajeitar com a comida, seja um branco refrescante com ostras ou um tinto clarinho, tânico e ácido, sensacional casamento com leitões assados, por exemplo. Encaram pratos difíceis, como só eles, tipo a lampreia (uma enguia que não é lá muito apetitosa, e só se torna saborosa com um desses), bem como podem ser usados sem moderação com o bacalhau, em seus mais diversos preparos. Versatilidade é a palavra.

Mas voltemos à Loureiro. Esta uva, assim como aconteceu com a Alvarinho, vem ganhando destaque, estampado rótulos como monovarietal, resultando em vinhos cheios de personalidade ao mesmo tempo em que são fáceis de gostar e beber, com preços bem atraentes.

Na semana passada, saindo da quarentena depois de tomar a primeira dose da vacina, eu participei de uma agradável prova de vinhos do Minho, numa linda tarde fresca no meu paraíso chamado Casa do Sardo, onde a felicidade me transborda, com seus pratos de pescados e porcos – tudo o que um Vinho Verde quer para dar as mãos.

Provamos seis vinhos, e o mais notável, para mim, foi o Compromisso, que tem justo a finalidade de ser comprometido com o prazer à mesa. Encontrou-se com um prato de bottarga com aipo e azeite de maneira memorável. Foi difícil parar de comer e bebericar, e vice-versa. Polvo? Vai bem, obrigado. Leitão? Tempera com acidez, que também equilibra a gordura suína.

É um vinho desses que chamo de elétrico, cheio de vigor e jovialidade, muito, mas muito perfumado, características da casta Loureiro, que pode ser classificada como nervosa.  Personalidade é boa definição. Tem grande amplitude de combinações com a comida, um vinho que merece ser conhecido.

Prato de bottarga com aipo, azeite e siciliano, n’A Casa do Sardo – Foto de Bruno Agostini©

Cheio de frescor e aromas de frutas como melão, maçã verde, abacaxi, limão e pêssego, tem notas florais deliciosamente complementares, um conjunto muito bom para a comida, mas um vinho capaz de me alegrar sozinho, numa tarde quente de verão (e também numa de inverno). Mas com sardinhas na brasa, camarões grelhados só no sal e azeite, com toque de limão (lagosta, cavaquinha e lagostim também!) deve ser ainda melhor do que em carreira solo. Com a bottarga, como já dito, foi amor à primeira vista, perfeita comunhão entre a Itália e Portugal. Imaginei com polvo, e estou certo da combinação harmoniosa.

Da safra 2020, o vinho está perfeito para ser bebido agora, cheio de frescor juventude, como a maioria dos Vinhos Verdes deve ser (não todos, hoje já tem muita coisa mais madura, e excelente, mas de perfil bem diferente, mais galego, digamos, e sempre com a Alvarinho).

Parte da linha da Quinta da Lixa e bruschettas do Sardo – Foto de Bruno Agostini©

Quem produz o vinho é a Quinta da Lixa, empresa familiar e tradicional, que investiu pesado nos últimos anos, tanto na compra de novos vinhedos como também no desenvolvimento de estrutura turística, como o belíssimo Monverde – Wine Experience Hotel (dê uma olhada no site: https://www.monverde.pt/).

Curioso é que, dois dias depois, na sexta, eu fui almoçar na Mercearia da Praça. O jovem e competente sommelier da casa lusitana da General Osório, em Ipanema, Leandro de Souza, de apenas 23 anos, me sugeriu este vinho (lá custa R$ 112, para consumo no restaurante), ao me perguntar se gosto de Vinhos Verdes e obter resposta positiva.  (os vinhos da quinta da Lixa também podem ser encontrados em locais como O Copacabana Palace, o Gajos d’Ouro, a Toca da Traíra, Beco do Alemão, Farrapos e Laguna, entre outros).

– Eu provei na quarta pela primeira vez, e gostei muito. Mas, por isso, preferia outro.

– Que tal, então, o Bico Amarelo, da Esporão?

Ótima sugestão, que só reforçou meu amor pelos Vinhos Verdes, que já nutro há tempos, por razões de família. Meu avô Mário adorava tanto que a bojuda garrafa do Calamares era o continente de água na geladeira de sua casa, e eu curtia o rótulo com animais marinhos. Tudo começou na infância…

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