O Lasai e o paradoxo da cozinha

A simplicidade, por mais irônico que seja, é das características mais difíceis de se alcançar quando o assunto é comida. Um prato com poucos elementos,facilmente identificáveis, e que dialogam perfeitamente entre si, com equilíbrio, texturas variadas e aquele balanço entre sal, doçura, acidez,amargor, gordura e outros elementos que formam aquilo o que chamamos de sabor.  Isso é dificílimo, e quem cozinha sabe muito bem disso. Não só quem cozinha, mas também quem apenas gosta de comer, por óbvio que é.

Agora, fazer isso com originalidade é ainda mais difícil. Porque no repertório gastronômico mundial, entre clássicos da culinária a receitas autorais de chefs contemporâneos, não faltam referências para um chef montar seu cardápio. E, veja bem, não há mal nenhum evidentemente em se cozinhar apenas aquilo o que já se conhece: o que importa, ao final de tudo, é que a comida seja boa. O resto, quando o assunto é a cozinha de um restaurante, para mim está em segundo plano.

Pois, se além disso o cozinheiro ainda planta boa parte do que serve, a missão se torna mais trabalhosa, aparentemente, mas na verdade é algo fundamental para facilitar os itens citados acima: a simplicidade e a originalidade. É coisa para poucos, e geralmente são restaurantes em áreas rurais. Sim, ele tem duas hortas, uma no Rio, e outra na serra, na região de Petrópolis. Ele cuida das plantas. Filma. E quem o acompanha nas redes sociais como esse tem uma experiência ainda mais deliciosa por conta dessas imagens.

Pois no Lasai, no coração de Botafogo, o chef Rafa Costa e Silva serve o que é dos melhores cardápios do Brasil desde a sua abertura, em qualquer lista que se faça. É uma cozinha de autor,  que trilha os caminhos da pureza, da simplicidade, da essência dos ingredientes. Trabalhando com folhas crocantes e raízes sedosas, ora com carnes que se desmancham em textura amanteigada, ou peixes e cortes de porco, ambos de pele crocante. Ou não. Não há fórmulas rígidas nem obviedades.

Ontem, como nas outras muitas vezes em que lá estive, tive mais uma noite memorável. Sentado no salão, o que só havia feito uma vez ali, pude observar melhor o balé do serviço capitaneado pela Maíra, que não só escolhe e explica os vinhos com precisão, como também torna a noite ainda mais descontraída.

As paredes de tijolos aparentes, a estrutura em madeira do teto, as redomas com os ingredientes da vez. A decoração é bonita e discreta, a louça é linda. E a comida, divina: simples, deliciosa, original, fresca, autêntica.

Hoje não me importo em descrever os pratos: falo de um estado de espírito, de uma filosofia de vida, de uma aula de cozinha e afeto. Afinal, desculpe o clichê, mas comida é amor. E nada mais.

Obrigado, chef. E parabéns.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *