Vinho da Semana: Lírica Crua – um dos melhores espumantes do Brasil é engarrafado com tampinha de metal, e isso é um bom sinal

Repare na turbidez do vinho, e nos pontinhos no fundo da taça: são as leveduras mortas – Foto de Bruno Agostini©

“Mas o que que é isso? Vinho fechado com tampinha de refrigerante? Ah ah ah Bruno, essa crise tá fogo mesmo, você já bebeu melhor. Isso deve ser uma tranqueira”, comentou o amigo que é mais chegado aos destilados, mas que também gosta de cervejas e anda bebendo vinhos ultimamente, sempre o chileno mais barato do mercado.

Eu caí na gargalhada também. E comecei a explicar que não é bem assim. Sobre a mesa estava a garrafa do espumante Lírica Crua – que, resumidamente, é um dos melhores do Brasil em minha opinião. Colocaria facilmente entre os cinco primeiros (inclusive porque é produzido em um estilo que eu adoro: raro, por ser difícil; cítrico, seco e complexo).

O vinho vem evoluindo muito na última década, desde que foi lançado pela importadora Decanter, que há alguns anos começou a produzir alguns rótulos. O Lírica é o ícone da casa de Adolar Hermann (seus vinhos são produzidos na Serra do Sudeste-RS, talvez o melhor terroir de espumantes hoje, junto com Pinto Bandeira). Foi um dos primeiros lançamentos da vinícola Hermann, e quando digo que ele está evoluindo, não estou falando de melhora na garrafa com o tempo. É o vinho mesmo, que vem melhorando edição após edição, mostrando cada vez mais elegância, profundidade e outros desejáveis atributos, como o frescor, e o bom trabalho com a leveduras na garrafa. Uma delícia.

Corta de novo para dezembro. O amigo, mesmo comprando vinhos mais baratos no mercado, gosta quando abro uma garrafa legal para ele, e ainda mais quando explico a história daquele vinho, onde e como é feito, as características que apresenta, e vou brincando de mostrar os princípios de harmonização. Adoro fazer isso. É didático inclusive para mim, porque a conversa vem acompanhada de dúvidas que ajudam a entender um pouco de como o consumidor comum vê o vinho, quais as suas dúvidas e curiosidades.

Expliquei que este é um espumante feito como os grandes exemplares da categoria, de Champanhe às mais finas borbulhas do mundo. Ele só não passa pela última fase do processo, que é o chamado dégorgement. Por isso a tampinha de metal. Porque, como se sabe, os espumantes feitos através do método tradicional fazem a segunda fermentação – que dó origem às borbulhas – na própria garrafa. O dégorgement é quando essa tampinha é retirada para que saiam também as leveduras mortas, e depois a garrafa recebe a tradicional rolha “cogumelo”, usada em espumantes. Na Lírica Crua isso não acontece, e nós bebemos o vinho com elas ainda lá dentro, realçando as notas de padaria, de fermento, essas que podem evoluir para pão tostado, brioche etc. Isso é uma delícia, e dá imensa personalidade e complexidade ao vinho. Adoro. Mas não vinho que qualquer um faz e muito menos em qualquer lugar. O vinho é puro, não tem as correções que o licor de expedição (colocado no processo de dégorgement) pode fazer. É mesmo “Cru”.

Neste caso, antes de surgirem as aromas de panificação, vem o imenso frescor deste vinho realmente especial. Primeiro, notas florais e de frutas cítricas, como limão siciliano e pomelo, junto com pêra e melão pele-de-sapo (este último já mais madurinho). As leveduras dão corpo também, não apenas complexidade e delicioso perfume, e o vinho mostra boa estrutura e cremosidade, com a turbidez característica que as leveduras dão, quando em suspensão no líquido (caso não goste, deixe a garrafa de pé na geladeira por uns cinco dias e sirva com cuidado). Uma acidez enérgica dá liga em todo o conjunto, que grita por comida, mesmo que seja completamente dispensável – é um vinho que se basta, e eu poderia bebê-lo diariamente.

Acho que combina com tudo o que vem do mar e do porco, mas especialmente se as carnes ou os molhos tiverem algo de gordura, e é desejável ainda que haja na receita sabores cítricos. Faço muito porco na brasa, de várias maneiras, e também vegetais, de modo que acho este um vinho sensacional para um bom churrasco. Neste dia comemos costelinha se desmanchando, estiolo “pulled pork” com purê de batatas perfumado ao limão siciliano. Foi memorável este dia, entre o Natal e o Réveillon passados. Escrevo o texto desejando muito uma garrafa, mas que pena: não tenho mais…

Custa R$ 97,50 no site da importadora Decanter (neste link aqui). Eu acho (BEM) barato para o que entrega.

 

 

 

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