Cozinha em Revista: Lilia Café, no CCBB, serve uma cozinha de alta classe com preços acessíveis

O saguão monumental da antiga sede do Banco do Brasil, onde sempre há boas mostras em cartaz: no momento, “Paul Klee – Equilíbrio Instável” – Foto de Bruno Agostini
Você chega, cruza a porta do CCBB, onde sempre há boas mostras em cartaz. No saguão monumental, a claraboia ilumina o ambiente e, à esquerda, a filial da Livraria da Travessa é o caminho para se chegar ao segundo andar, onde está discretamente instalado o Lillia Café. Chegar até ali já é delicioso, mas sofrido mesmo é ter que escolher um dos três pratos que compõem cada etapa do menu que muda diariamente, e que é desses em que dão vontade de experimentar tudo.
Pão, manteiga, flor de sal e pastinha, para começar – Foto de Bruno Agostini
O couvert tem pão de fermentação natural, desses saborosos, aerados e que estalam na boca, com manteiga e flor de sal, além de pastinhas (e quem precisa de mais?). Assim comi o melhor hommus que me lembre, em toda a vida. Depois, mais três etapas: entrada, principal e sobremesa. Custa R$ 68. Não há nada melhor no Rio nessa faixa de preço. E digo mais: qualquer restaurante desse nível vai custar pelo menos R$ 150 na opinião deste editor.
Saí de lá convicto. O Lilia Café, que abriu as portas não faz muito tempo, já se coloca entre os melhores restaurantes do Rio. Na minha estima está seguramente entre os cinco melhores.
Não chega a espantar, uma vez que o Lilia – primeiro restaurante do chef Lucio Vieira – também no Centro, é um baita sucesso desde a inauguração, seguindo a mesma fórmula: menus sazonais, criativos, originais em que uma das metas da cozinha é aproveitar ao máximo os ingredientes: talos, ossos para caldos, aparas de carnes… Muitas pancs. O resultado é uma comida de alta classe, cheia de sabor, com personalidade, sustentável e extremamente barata para o que oferece.
Na cozinha meu xará Bruno Guarnido (com passagens no carioca Oro e no paulista Epice, antiga casa de Alberto Landgraf)  prepara uma cozinha que é ao mesmo tempo de vanguarda, mas também “confortável”, cheia de chamego. Além de tudo, há pratos únicos, criados um dia, e que jamais serão repetidos.
Teria sido um imenso sofrimento escolher no dia da minha visita, veja se não (sorte que minha mesa tinha justamente três pessoas, entre elas o Lucio, de modo que podemos pedir tudo o dividir entre os três o menu completo do dia).
Creme de lentilhas com mocotó; cenoura em diferentes texturas e saladinha – Foto de Bruno Agostini
Para a entrada tínhamos cenoura assada em creme caramelizado, com iogurte, óleo de manjericão e rama de cenoura: o adocicado, o ácido e o frescor da erva, em comunhão. A salada de folhas vistosas tinha vagem, conserva de yacon, maionese cítrica e crocante de pão. Novamente, constrastes, equilíbrio, originalidade. para encerrar o capítulo entradas, um dos pratos de que mais gostei de comer recentemente: creme de lentilha, mocotó, creme fresco e cebolinha francesa. Eu, que vivo de explicar pratos, não tenho o que dizer senão que é algo divino.
Cebola; arroz de polvo e blck angus, para os principais- Foto de Bruno Agostini
Na hora dos pratos principais, sempre há opções vegetarianas. No caso, uma torta de cebola, com ricota caseira, creme de cebola e pó de cebola queimada. Para um cebolófilo como eu, um espetáculo. Outra opção era o arroz de polvo, com ‘sofrito’ sabe de quê? De caqui, sim, caqui… Além de grão de bico e espinafre (é a foto da chamada para este post, na capa do site). Usando a brasa que existe na cozinha, um naco de black angus, suculento, macio e no ponto exato, com creme de inhame, picles de cebola roxa, vinagrete de verdes tostados, brócolis e farofa de pão. Não sei qual dos três eu mais gostei.
Sobremesas são um capítulo à parte, graças ao talento do jovem Henrique Rossanelli, um confeiteiro que não é exagero classificar como “precoce e genial”, que trabalhava no Oro antes de ir para o Lilia (sentiu o nível da casa?), comandando a confeitaria do restaurante de Felipe Bronze.
Bolo denso de chocolate: sobremesas preparadas pelo prodígio Henrique Rossanelli – Foto de Bruno Agostini
Naquela tarde cheia de surpresas e sabores marcantes, encerramos um um trio de doces pouco marcados pelo açúcar: morangos assados, iogurte natural e merengue (leve e refrescante); bolo denso de cacau, pasta de amendoim e chantilly de paçoca (fantástico) e um arroz doce digno de nota, com crocante de especiarias e nozes, com os grãos “al dente” e muito equilibrio no sabor.
Estou tentando desde então espalhar a notícia de que o Rio tem hoje um novo restaurante, muito, mas muito bom, num lugar bonito e central, com preços realmente muito bons para o que oferece. Que alegria é acompanhar o trabalho do Lucio.
O bolo de cenoura de Henrique Rossanelli – Foto de Bruno Agostini
Na saída, faça como eu: passe no café, que funciona nos fundos da loja, com balcão voltado para o salão do CCBB, e leve para casa o bolo de cenoura, molhadinho: não lembro de provar melhor.
Recomendo seguir o restaurante no Instagram, para acompanhar os menus. Eu comeria lá todos os dias, feliz da vida.
SERVIÇO
Lilia Café: CCBB, Rua Primeiro de Março 66 – 2283-4018.
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