Porque eu amo a comida arabe, desde sempre: sabores, aromas, histórias e vizinhos

 

Esfirra de carne do Baalbeck, na Galeria Menescal: a melhor do Rio, junto com a da Padaria Bassil, no Saara – Foto de Bruno Agostini

Tenho uma relação antiga com a cozinha árabe, desde que conheci o Baalbeck, na Galeria Menescal, ali pelo fim dos anos 1970, quando tinha uns três ou quatro anos  idade que sou capaz de identificar na memória as lembranças mais remotas no tempo. Desde então, a esfirra dali me comove e emociona. “Eu amo comida árabe”, digo praticamente desde sempre.

Outro marco cronológico desta vida é a Guerra do Líbano, a partir de 1982. Ela me levou a ter contato, pela primeira vez, com refugiados fugindo de bombas e canhões. Era da família Saliba, que chegou a Teresópolis para se estabelecer. Uma mãe que deixou o marido no país e veio para o Brasil, com três filhos pequenos, com algo entre um e seis anos de idade.

Assim, aumentou minha condição: “Eu amo muito a comida árabe. É a que eu mais gosto no mundo”, dizia do alto dos meus seis ou sete anos, mais convicto do que nunca, um amor que nutro até hoje.

Quibe, cebola e hortelã, tudo cru, e a melhor cebola frita do Rio: só no Amir – Foto de Bruno Agostini®

Os via fazendo pães e pastas, finalizando as bolachas no forno com azeite e zaatar, este tempero delicioso e marcante. A coalhada seca foi abrindo meu paladar para a acidez. O babaganuj despertou o interesse pelos sabores defumados. Havia o perfume da hortelã, as saladas, as conservas em pote, como aquela de rabanete, que alcança irrepetíveis tons rosados, vindos da casca que se torna pálida, entregando sua cor à iguaria.

Aniz etílico: o Arak libanês servido no Amir: mudança de cor

Fora os quibes e esfirras, as kaftas na brasa e os charutinhos de repolho, as abobrinhas recheadas. E a pimenta malagueta, que era forte e eles consumiam um preparo caseiro. Apesar do ardor, foi ali que descobri do universo apaixonante do uso culinário e gastronômico das distintas variedades de picância, incluindo a fundamental pimenta síria. As especiarias que marcam os temperos árabes: a canela, o cardamomo, e aquela bebida curiosa, que de translúcida virava leitosa no exato momento em que se adiciona água ao copo, devidamente servido com gelo.

Os rituais coletivos à mesa, o universo histórico e artístico da Península Arábica e arredores, a cultura islâmica, a escrita ilegível lindamente caligrafada – da direita para a esquerda.

Era muita novidade para uma criança curiosa, sem esquecer dos doces, com a massa crocante, o perfume da água de flor de laranjeiras, e os sabores amendoados das castanhas. Viva o pistache, essa nobre noz verde, e também os pinoles, que lembravam os pacotes de “coco de rato”, mas eram muito melhores.

Através de um pequeno empório que frequento até hoje e de uma família libanesa que se tornou amiga da minha eu passei a cultivar o prazer de comer, e o apreço pela gastronomia árabe, e em consequência das especiarias e dos vegetais crus, das carnes de cordeiro etc.

Os Saliba eram vizinhos na casa de veraneio de tantas lindas recordações que tínhamos na serra, e íamos sempre nos fins de semana e férias.

Trio de pastas, cestas de pães, azeite: quando começa o longo ritual do Amir – Foto de Bruno Agostini®

Os anos foram passando, e hoje uma das grandes alegrias da vida é me entregar a uma tarde numa mesa redonda, com um grupo de amigos, repleta de pratos árabes, que aos poucos vão sendo trocados, num lento e saboroso ritual gastronômico.

A trouxinha de folha de uva do Amir, há 15 dias: sabor de infância – Foto de Bruno Agostini®

E, assim, o Amir se tornou um dos lugares de que mais gosto no Rio. Por tudo que foi dito até aqui.

No site, eu falo em breve um pouco mais deste banquete que varou uma tarde calorenta. O Rio parecia um inferno, mas o Amir era o Paraíso.

* Este texto foi escrito para o Instagram @brunoagostinifoto (segue lá).

 

 

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