Labuta Mar: o trabalho atlântico de Lúcio Vieira, agora ancorado em Copacabana

Ostras e rollmops: carioca e cosmopolita, este boteco de pescados sabe trabalhar o frescor do mar – Foto de Bruno Agostini®

Às vezes parece que o Lucio Vieira (ou @lucioleft) tem o plano de dominar o mundo. Se é isso o que quer, ele está no caminho certo, e executa isso com apetite voraz. Mas anda devagar como quem não tem pressa.

Assim, como quem não quer nada, abriu o Lilia numa área bem desvalorizada do Centro do Rio. Mas a casa, um bonito sobrado colonial típico da Lapa, logo se posicionou entre os melhores restaurantes do Rio. Hoje, seu menu custa R$ 93, e é sempre algo inalcançável em outros endereços da cidade: uma comida de tão alto nível, em sequência bem satisfatória de pratos em termos de ritmo (tem que fluir como executivo do Centro) e quantidade, por esse preço não existe (sim, existe, a R$ 98 no Lilia Café).
O cozinheiro fez do local centro de peregrinação de gente que gosta de comer muito bem, incluindo muitos dos melhores chefs da cidade. Na primeira vez que fui, encontrei o Elia Schramm e outros de seus colegas. E, nas outras, sempre tinha alguém conhecido do meio. Alguéns.
Lucio Vieira faz uns marinados de peixe fora-de-série, extrai de plantas sabores tostados em preparos precisos de caramelização, e trabalha muito bem os caldos e molhos de base. Sabe grelhar e assar carnes e pescados. Tira onda, o rapaz. Sabe trabalhar, como costuma a dizer meu amigo Cacau, competente mestre-de-obras que faz as minhas.
Então, Lucio ocupou um dos prédios mais lindos da cidade, o CCBB, com seu exuberante e já citado Lilia Café, instalado em posto nobre, com vista para o salão, e com direito a exposições sempre muito boas no espaço cultural. Você almoça desfrutando a arquitetura do prédio. Ou aprecia a beleza do lugar comendo muito bem: que tal um pão de queijo de pastrami com mostarda?
Jiló com baldão de pimenta da boa, no balcão da birosca do Centro – Foto de Bruno Agostini®
Daí, ele alugou uma pequena birosca, lá pelos lados do Lilia original, que batizou como Labuta Bar, um substantivo feminino que representa o trabalho incansável desse cara, com quem já encontrei por volta das 2h no Mercado de São Pedro, em Niterói, comprando pescados na madrugada fria do inverno do Rio.
Ostras com gelatina de porco: só no Labuta Bar – Foto de Bruno Agostini®
Lá tem um jiló que comi com pimenta apenas memorável, assim como já famosas ostras com rica gelatina de porco, um maremonti despojado como gostam os cariocas assim como eu.
Depois de dominar o Centro do Rio, ele parte para o ataque, e invadiu a praia mais famosa da América Latina, instalando o seu Labuta Mar, com nome que ao mesmo tempo apresenta a proposta do menu e rende homenagem ao bairro, atlântico, oceânico, marítimo, praiano.
As ostras nativas de SC com azeite de aipo, limão-cravo, mignonette de cebola roxa e folhinha de coentro – Foto de Bruno Agostini®
A Princesinha do Mar ganhou um Labuta temático, que extrai das águas suas iguarias. Do mar daqui, de onde saem os peixes frescos, como o xaréu e a sardinha, e de alhures, de Santa Catarina, por exemplo, de onde são coletadas as ostras nativas, que ele tempera de modo arrebatador, com azeite de aipo, limão-cravo, mignonette de cebola roxa e folhinha de coentro. Assim, ele consegue uma missão quase impossível: melhorar com seu tempero uma ostra gorda do inverno catarinense, que já é algo glorioso sem nenhum adorno, bastando ela, nua, crua e resfriada no gelo. (Quem traz esses mariscos pro Rio é o craque Marcelo Malta, do Sabor das Águas.  Neste época,  no inverno, elas chegam gordas, suculentas e ubtuosas, em sua melhor e mais exuberante forma.) Mas essa pincelada colorida de de erva, gominhos de fruta, óleo de oliva e delicado preparo crocante e ácido de cebola dá uma certa moldura épica à concha.
Crudo de xaréu, com tempero asiático e funcho, servido com Sauvignon Blanc nacional bem escolhido – Foto de Bruno Agostini®
É um lugar curioso, que tem um pouco da conterrânea Adega Pérola, desta vasta Copacabana gastronômica, com sua vitrine refrigerada e seus rollmops. Mas também traz um quê de Satyricon buziano-ipanemense, com seus carpaccios e crudos nível Riviera Italiana, um quê de Mediterrâneo neste mar atlântico.
Seu vizinho na Raimundo Corrêa, é o Menadro, do Haru, outro expert na arte de saber comprar os melhores peixes (aliás, foi com ele que fui a Niterói quando encontrei o Lúcio por lá, há cerca de um ano).
Lúcio se cerca de outros bons cozinheiros como ele, e mostra não só liderança, como poder de identificar talentos. Trouxe para ser seu braço-direito Rodrigo Tristão, que se reveza entre o Centro e Copacabana, assim como o Lúcio. E vem recrutando jovens profissionais talentosos, o que é fundamental em sua cozinha de produto, que mostra frescor, identidade, delicadeza e sinceridade: seus pratos são bonitos, mas não usam maquiagem, entende?
São coloridos e festivos. Têm volume e causam surpresa.
O Labuta Mar é o maior barato.
SERVIÇO
Labuta Mar: Rua Raimundo Correa 10-A, Copacabana. Instagram: @labuta_mar
E MAIS:
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