Henriqueta: um pouco da Gruta de Santo Antônio no Leblon

Camarões à Bulhão Pato, adaptação carioca, com Encruzado do Dão na Gruta: não tem como dar errado – Foto de Bruno Agostini®

Durante anos, a Gruta de Santo Antônio foi, e ainda é, o único restaurante de Niterói a atrair MUITOS cariocas só para almoçar. Há outros exemplos disso, como o igualmente português Seu Antônio e, mais recentemente, o novo Amana – distante, em Itaipu, mas pelo que vejo vale, e muito, a viagem. Poderia citar outros endereços famosos, como o conjunto de biroscas do Mercado São Pedro, que preparam pescados que nós compramos, se quisermos, o Caneco Gelado do Mário, além dos simpáticos italianos Torninha e Da Carmine. Com exceção dos dois primeiros citados, um hás tempo na minha lista de desejos e outro uma das mais cobiçadas novidades, já fui em todos os outros. Tudo bom, tudo muito bem, mas não valem a viagem. Se você estiver em Niterói, ok. Mas ir até lá só para comer… não acho que valha o esforço.

Mas até a Gruta de Santo Antônio conseguiu essa proeza. Levar MUITOS cariocas da Zona Sul, que não gostam nem de ir até a Barra ou a Tijuca, até lá. Vários grupos de amigos alugavam vans, e armavam grandes mesões. Havia encontros de amantes do vinho, com suas confrarias de rótulos caríssimos. Não vão a qualquer lugar essas pessoas. Fora outro fenômeno que acompanhei de perto: a profusão de grandes enólogos português que visitavam o restaurante, para prestigiá-lo. Nas dez vezes em que estive por lá, umas cinco ou seis fui levado por importadores de vinho, para almoçar do outro lado da ponte.

Foram as únicas vezes em que fui de carro. Nas demais, viajei agradavelmente de barca, antes do plantão no jornal, que ficava no Centro do Rio, assim como a estação da Praça 15, de onde partem as barcas rumo a Nikiti. Fazia um programa solitário, e incrivelmente agradável. Trabalhava nos fins de semana e feriados na Secretaria de Redação, que entra tarde (17h) e sai sempre depois de meia noite, quando o jornal já rodou quase que inteiramente a edição. Era terrível para ir embora, mas perfeito para aproveitar um almoço tranquilo.

Eu me programava para chegar cedo, entre 11h30, quando a casa abria, e 12h. Ia de metrô até o Centro. Sempre aos sábados, quando tem movimento por lá, porque a caminhada entre as estações, do metrô e das barcas, é perigosa, quando vazia, e mais ainda aos domingos. Vá, mas com atenção.

Fazia isso no inverno, quando as tardes no Rio são agradáveis. Cruzar a baía já era mágico, e chegava até Praça Araribóia feliz, invariavelmente. Não pelo trajeto, que era lindo, mas pelo almoço a seguir, que era mais lindo ainda.

Polvo à lagareiro: um dos muitos pratos das duas casas – Foto de Bruno Agostini®

Apreciador da cozinha portuguesa por razões familiares, encontrava na Gruta sempre um menu impecável. Fossem as sardinhas na brasa ou os bolinhos de bacalhau. Fossem as alheiras ou os camarões à Bulhão Pato, os pastéis de nata de bacalhau ou uma cumbuca de inspiração francesa, chamada Panelinha de Lagostins à Borgonha, sublime preparo com abobrinha e shiitake. Isso, só para começar. Ah, sim… Tem polvo na brasa, com alho e azeite, rissóis de camarão e pataniscas. Aliás, posso estar errado, não sei se tudo isso foi inventado lá, mas certamente foi na Gruta onde vi e provei, pela primeira vez, três coisas que hoje encontramos muito por aí: bolinho de bacalhau recheado de queijo de ovelha curado, tipo Serra da Estrala; pastel de nata de bacalhau e camarões à Bulhão Pato, adaptando a clássica receita portuguesa, na falta de amêijoas (ando provando excelentes versões, com sururu e lambreta, à altura da original, posso dizer).

Na hora do prato principal, aquela dúvida gostosa. “Hoje tem um leitãozinho?”, era a primeira pergunta que fazia. Nem sempre tinha. Já ficava mais fácil, só precisava escolher entre o polvo à lagareiro, o arroz de pato e algum bacalhau. Aí, é foda. O bacalhau do chef é perfeitamente confitado, ganhando textura especial na carne, que se solta em lascas, e no molho azeitado que resta, com colágeno da pele bem extraído. Quando há braseiro, como é o caso, penso sempre num belo lombo na churrasqueira (polvo e sardinha também melhoram muito assim, aliás, tudo). Fecha o olho, aponta pro menu e escolhe. Pronto. São infalíveis. Lombos altos, dessalgados na medida, e preparados de modo simples, como manda a regra, com pequenas variações, mas sempre caprichando no azeite de qualidade. Nem vou ficar dizendo que o lagareiro, o à Brás e o com natas são impecáveis, ou que há preparos que merecem atenção, como o à dorê, bem empanado, e guarnecido com batatas cozidas, brócolis, ovos, azeitonas pretas e alho laminado frito no azeite. Bárbaro!

Os doces? Bem, tem ovos moles, barriguinha de freira, toucinho do céu, pastel de nata e o algarvio, o melhor rocambole de laranja que já comi, com amêndoas moídas, e uma textura rara, quase cremosa, com comovente umidade.

Pois bem.

Henriqueta: já nasceu badalado, e faz jus – Foto de Bruno Agostini®

Tudo isso para dizer o que já havia noticiado há tempos: o Alexandre Henriques, o anfitrião disso tudo, agora está no Leblon, que está se tornando um polo de endereços dedicados à cozinha portuguesa, porque abriram pelo menos meia dúzia de novos lugares dedicados ao tema nos últimos anos. O Henriqueta é o mais novo deles, inaugurado há cerca de um mês, já causando alvoroço na esquina da Rua Dias Ferreira com a Aristides Espínola. A sociedade reúne empresários do vizinho Galeto do Leblon e do Escama. Sabem o que fazem.

Henriqueta é uma homenagem à mãe de Alexandre, que inaugurou a Gruta no fim dos anos 1970, ao lado do marido. Fez o restaurante, que explodiu a partir dos anos 2000, com diversas premiações, e o trabalho dos filhos se destacando, dando visibilidade ao lugar, merecidamente. Ela está na ativa até hoje, e cozinha muito. Seu filho, tem dado expediente na nova casa, com evidente alegria, circulando entre a cozinha e o salão.

Regado da nobre mesa vizinha: a Quinta dos Roques, que aprecio há tanto tempo – Foto de Bruno Agostini®

A felicidade do chef se reflete na sua comida. De uma cozinha miúda, extrai pratos excelentes, honrando a tradição da família Henriques. Fui na semana em que acontecia um movimentado evento de vinhos portugueses, do Globo, no Jockey Club. Vi uma procissão de grandes produtores passando por lá, mostrando reverência ao trabalho deles, do mesmo modo que acontece em Niterói.

Na noite que fui, ao meu lado estava Luís Lourenço, da Quinta dos Roques, que para minha sorte me mandou uns copos. Mas todo mundo foi. Luís Pato, Fernando Seixas, Julio Bastos, Anselmo Mendes, João e Rita Soares, além do crítico Rui Falcão… E o pessoal da Quinta dos Roques, já citado. Se conhece um pouco de vinho, sabe de quem estou falando. Fora os atores portugueses globais: Paulo Rocha e Ricardo Pereira. E várias outras personalidades que vi por lá, de apresentadores a artistas. Padre Omar foi benzer. Vi Barca Velha rolando, e outros rótulos grandiosos, e experimentados bebedores de vinho, e amigos que valorizam a boa mesa por lá. Essa inauguração tão aguardada foi um acontecimento. Vive lotado. Sem mesa mesmo. Não tem reserva, então se programe.

Acepipes: lulas à Guilho e pastel de natal com bacalhau – Foto de Bruno Agostini®

Mas, já adianto. O Henriqueta não é a Gruta. O DNA é o mesmo, e podemos encontrar ali vários sucessos de público da matriz niteroiense, como o polvo à lagareiro, e aqueles petiscos todos: bolinhos de bacalhau (com e sem queijo), pastel de nata de bacalhau. Mas Henriqueta é outra coisa. A panelinha de lulas à Guilho, puxadas na frigideira de bronze, com azeite, muito alho triturado, pimenta dedo-de-moça, limão e salsinha, é uma das novidades.

Prego de atum: malpassado, por favor – Foto de Bruno Agostini®

O cardápio tem mais petiscos, e prima na seleção de acepipes: tem um prato tipo couvert, com tremoços, queijinho de cabra, chouriço, pão, manteiga, pasta de atum e azeitonas pretas, lembrando os clássicos serviços de antigamente nos tantos restaurantes (quase todos) de origem ibérica do Rio. Você pode enriquecer com a seleção de embutidos: chouriço, morcela, salpicão, alheira, farinheira, além de queijo da Serra da Estrela. Souberam montar o menu.

Traz mais  novidades, como o prego de atum, que é popular na Ilha da Madeira, mas não conhecia. No continente, é feito com carne bovina (há versão com porco, chamada bitoque). Pão de fermentação natural lambuzado de aioli de mostarda e um belo filé de lombo, grelhado como se deve, malpassado. Muito bom. Mas é quase uma refeição, sugiro dividir, porque vale a pena explorar o menu. Com um branco do Dão, o Quinta do Correio 2021, da Quinta dos Roques, ficou algo sublime.

– Esse eu vou levar para o Rio Gastronomia, com certeza. Acha que vai vender bem? – pergunta o chef, para a minha óbvia resposta positiva.

 

Costelinhas com tempero secreto dos Açores: surpreendente – Foto de Bruno Agostini®

E também um preparo tão surpreendente quanto delicioso, que atende pelo nome de Torresmo do Seu Gabriel, receita de um dos sócios do Galeto do Leblon que também está no Henriqueta: “Costelinha de porco fresca com tempero secreto da Ilha Terceira”. Fresca e crocante, e extremamente saborosa, com tempero realmente surpreendente, com presença de canela, que dá mesmo um toque especial. Imagine, então, tendo na taça o Parcela Única, de Alsemo Mendes, o Papa da uva Alvarinho, a Rainha do Minho, essa região que nasceu para fazer vinhos adequados à comida, especialmente à portuguesa, e em particular aos preparos com peixes e frutos do mar, assim como a carne de porco. Seus Alvarinhos são fora da curva.

Souberam montar o menu, repito. No clássico preparo à Bulhão Pato, há três distintos frutos do mar para o mesmo preparo clássico, ali descrito: amêijoas, camarões e lagostins. “Molho clássico da região da Estremadura, tributo ao poeta português Raimundo António de Bulhão Pato, produzido com Azeite, manteiga, alho, coentros, vinho branco, limão, pimenta-do-reino e sal”.

Depois, uma seleção de poucos e certeiros pratos, apenas quatro: bacalhau à Henriqueta (“Lombo de bacalhau confitado, assado em baixa temperatura com batatas ao murro, emulsão de bacalhau, geleia de pimentão, farofa de panko e cebola”), polvo à lagareiro, arroz de pato e arroz de camarão. E precisa mais?

Ao final, está lá o indescritível Algarvio, um sonho em forma de rocambole úmido em calda de laranja, com um toque de amêndoas.

Fim.

…Mais ou menos: já programei o breve retorno, em breve, com amigos. O primeiro, de muitos.

SERVIÇO
Henriqueta: Rua Aristides Espínola 121, Leblon. Tel.: 3429-6623. Instagram: @henriqueta.rj

 

 

 

 

 

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