Vinho da Semana: Pandolfi Price Larkün Riesling 2017 mostra a nova cara da enologia chilena

Os sete vinhos a postos no balcão – Foto de Bruno Agostini©

Como se sabe, a uva Riesling nasceu para a carne de porco, e vice-versa. Casamento antigo, que vem do encontro dos cardápios suínos de acento germânico com as regiões produtoras deste vinho, que pode ser extremamente seco e eletrizante mas também um néctar doce de alta concentração de açúcar e baixo teor de álcool. Pode ser mais leve e refrescante, ou musculoso, com atributos físicos muitas vezes raros de se encontrar em um branco.

(No Brasil encontramos muito a Riesling Itálico, que deveria estar sempre acompanhada do sobrenome, porque não tem nada a ver com a Riesling Renana, como também pode ser chamada a linhagem germânica desta uva).

Nos últimos anos ela vem em alta, e para muitos (eu, inclusive) é a melhor das castas brancas. Se já faz sucesso há tempos em países de raízes britânicas, como Austrália, Nova Zelândia e EUA, é cada vez mais plantada também em países como Portugal, Argentina e Chile – neste último nascem os melhores exemplares da América do Sul, mas los Hermanos andam fazendo bonito, tanto na Patagônia quanto nas vinhas mais altas de Mendoza, onde vem ganhando merecido destaque.

A uva gosta de clima mais frio, e os ventos que sopram do Pacífico fazem muito bem a ela em solo chileno. Já falamos aqui da Riesling da Casa Marín, uma das primeiras a apostar nesta variedade, com vinhedos no Valle de San Antonio (já escrevemos sobre ele aqui).

Um brinde com Languedoc! – Foto de Bruno Agostini©

No finalzinho de 2020, quase como uma despedida de gala deste ano avassalador para o setor de bares e restaurantes, voltei a um dos meus endereços preferidos hoje: o japonês Mitsubá, no Rio Design Leblon, que ficou ainda melhor do que já era em seus tempos de Tijuca – como também já escrevemos aqui.

A mesa formada por um quarteto de amigos amantes do vinho e da boa mesa. Orientando nosso menu, Homero Cassiano, sócio, e Breno Naar, chef da parte quente da cozinha, ajudaram na escolha dos pratos para a bateria de vinhos, com sete rótulos (cinco brancos e dois tintos).

O produtor é dos emergentes do Chile e do Vale de Itata, no sul do país – Foto de Bruno Agostini©

Começamos pela França e fizemos escala na Argentina antes de pousarmos no Chile, degustando quatro garrafas de uma bodega que eu ainda não conhecia, a Pandolfi Price (pandolfiprice.cl), um dos produtores que estão fazendo um trabalho extremamente notável em uma região que vem ganhando relevo no cenário do vinho chileno, o Vale de Itata, no sul do país.

Curioso é que essa área faz vinhos que podemos classificar como o Chile moderno – e para isso usam técnicas antigas e artesanais de vinificação, fenômeno este que é mundial, aliás.

É aqui que voltamos ao porco e o seu entrosamento divinal com a Riesling. O almoço vinha em ascendência, ganhando sabores e vinhos mais imponentes na medida em que avançávamos. Brindamos com um branco francês do Languedoc e durante a passagem pela Argentina revisitei um dos mais admiráveis produtores do país, Riccitelli, que compareceu à mesa com dois  admiráveis, o Blanco de la Casa, corte moderno, até no rótulo, de Sauvignon Blanc e Semillón, com 40% cada; e Chardonnay, plantadas nos vinhedos de Gualtallary, berço de alguns dos melhores vinhos argentinos atualmente; e o seu Riccitelli Semillón 2017, que brilhou durante o serviço dos sushis e sashimis especiais do chef Eduardo Nakahara, que podemos tratar como mestre. Eram mariscos e cortes precisos de peixes gordos, com seus temperos individuais. (Para ler um post sobre o seu Merlot Ond Vines, clique aqui).

Enchemos a boca de untuosidade com o Pandolfi Price Chardonnay 2017, com seu longo estágio em barricas, de 22 meses – que se nota, obviamente, mas que não incomoda, e dá certa grandeza e vontade de ser Borgonha a ele. Belo vinho, mas bem caro (R$ 358 no site da Winebrands, que importa esta vinícola para o Brasil: www.winebrands.com.br).

Daí veio o vinho que mais me causava expectativa. Por ser um Riesling de Itata, de uma vinícola emergente que ainda não conhecia. E ainda estávamos num japonês de excelência.

Pandolfi Price Larkün: o vinho chama a atenção dos apreciadores desta casta germânica – Foto de Bruno Agostini©

Mostrando sua vocação para dançar em harmonia com carnes, primeiro escoltou os passos seguros, gordos e levemente adocicados da barriga de porco cozida à moda nipônica, desmanchando-se. Não é prato para qualquer vinho. Tintos não ficam bem a meu ver. Podemos brincar de contraste com um branco leve, ácido e fresco, como um Sauvignon Blanc do próprio Chile.

Barriga de porco à moda japonesa: não é fácil harmonizar aqui – Foto de Bruno Agostini©

Mas, neste caso, a Riesling é a chave para tornar a barriga suína ainda mais divina do que ela já é por natureza. O contato de 12 meses com as borras em tanques de aço inox e a ausência de madeira, ajuda a fazer deste vinho com 13,5% de álcool o par perfeito para o prato. Tem corpo, acidez e perfume, realçando ainda mais os sabores do porco, ampliando as camadas na boca ao mesmo tempo em que cumpre a função de limpar, nos fazer salivar até pegarmos novamente o hashi para mais um naco suculento. E mais um gole.

Língua bovina: outro sucesso com a Riesling – Foto de Bruno Agostini

Já nos encaminhávamos para o fim do almoço, e pedimos outra harmonização perfeita: gyutan, ou a língua à moda japonesa, cortada fininha antes de ir à grelha, ganhando notas de Maillard.

É um vinho maduro e robusto, mas que não perde o frescor e mostra um potencial de guarda que eu estimaria em dez anos, tranquilamente, para quem gosta de vinhos evoluídos. Com bonita coloração aloirada, com notas de frutas maduras predominando, como pêssego, e condimentos em forma de pimenta-branca e ervas aromáticas, como tomilho.  Um vinho penetrante e largo, que chama a atenção.

Feito com uvas de um vinhedo plantado em 2012, chamado Santa Ines, em nobre solo vulcânico e pé-franco, este Larkün é um vinho que promete chamar a atenção daqui em diante. Se depender de mim, já faz isso desde dezembro passado.

Fique de olho nessa vinícola familiar que se lançou ao mundo do vinho há uma década, e já colhe os frutos de um belo trabalho.

Depois arrematamos com dois tintos da casa, um Pinot Noir e um Syrah, como também o Chardonnay, ambos muito bons.

Está custando R$ 197, neste link: www.winebrands.com.br/pandolfi-price-larkun-riesling/p

E MAIS
O Mitsubá não tinha… – Novidade no Leblon ganhou várias virtudes (está ainda melhor)
Link para todos os posts desta coluna Vinho da Semana, publicado às segundas

 

 

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