Natal em harmonia: uma seleção de vinhos para a ceia

O arroz de bacalhau de Cadu Freitas, da Tasca Filho d’Mãe – Foto de divulgação / Bruno de Lima

Peru ou tender? Bacalhau, leitão, pernil ou cordeiro? Salada de batatas, macarronese, arroz de lentilha, farofa rica ou cuscuz marroquino? Nozes, amêndoas, terrine? Rabanada, panetone, pudim? Quem sabe se tudo junto na mesma mesa?

O cardápio natalino varia, e só tem uma coisa que não pode faltar nas mesas das festas de fim de ano: o vinho.
Fizemos uma seleção de quatro estilos que combinam perfeitamente com os  pratos típicos do Natal e do Réveillon.

CHAMPANHE

Podemos até acompanhar uma refeição como essa todinha ao sabor de borbulhas e brindes. Dá perfeitamente para ficar só nas garrafas de espumantes nacionais, como foi o tema da coluna passada (pode botar o link aqui). Mas, verdade seja dita: Champanhe é Champanhe.
Se tem duas datas em que merecemos abrir uma dessas é no Natal e no Ano Novo. Além do dia do nosso aniversário, claro.
Ir nas marcas mais conhecidas é uma escolha sempre certeira: e dá-lhe LVMH! Moët & Chandon, Veuve Clicquot, Perrier-Jouët, Don Pérignon, Krug… Cristal, Pommery, Salon? Mesmo quem não é muito ligado no vinho deve conhecer esses rótulos. Que são fáceis de encontrar mesmo em supermercados, e também em lojas especializadas e sites.
Mas, como se sabe, Champanhe não vive só das grandes maisons, ao contrário. São mais de 2 mil produtores na região, grande parte bem pequenos.
Um dos nomes mais cobiçados no momento entre os enófilos mais “geeks” é Jacques. Tanto o Selosse, que faz maravilhas em sua vinícola, em Avize, quanto o seu xará, Lassaigne, de quem se pode dizer o mesmo, instalado em Montgueux.
O produtor é dos emergentes do Chile e do Vale de Itata, no sul do país – Foto de Bruno Agostini
RIESLING
Aqui é uma preferência pessoal mesmo. Mas não é só. Por conta da natureza dos pratos típicos do Natal,  este é um vinho que servirá de coringa para quase todo o menu. Porque um bom branco alemão produzido com a Riesling se harmoniza muito bem com carne de porco e cordeiro, bem como em preparações agridoces, de uma maneira geral. Bingo! Fique de olho na quantidade de açúcar, porque encontramos Riesling alemão muito seco e também extremamente doce.
Podemos escolher uma garrafa do Chile, dos EUA, Nova Zelândia ou França? Sim, especialmente neste último caso, da germânica região da Alsácia.  Mas quem gosta de brancos aromáticos e intensos sabe: Riesling alemão é Riesling alemão.
Aí, dá um pouquinho mais de trabalho encontrar, mas não é tão complicado assim. Importadoras com bom sistema de entregas, como a Decanter, a Mistral, a Grand Cru e a World Wine, por exemplo, possuem excelentes rótulos alemães.
Bacalhau na Gruta de Santo Antônio, com vinho do Dão (pode ser branco ou tinto): perfeição – Foto de Bruno Agostini
DÃO
E na hora do bacalhau, é branco ou tinto? Desde que seja do Dão, tanto faz…
Os vinhos dessa região no Norte de Portugal nasceram para pratos com bacalhau e cordeiro. E também encontramos ali vinhos ideais para aves e porco. Daria para ficar a ceia inteira bebericando umas garrafas do Dão.
As duas uvas mais emblemáticas desta Denominação de Origem Controlada, a branca Encruzado e a tinta Touriga Nacional, mostram aptidão para ficarem ótimas com os itens principais do menu do período.
Os brancos vão acompanhar tender, pernil, leitão, chester e peru com galhardia, enquanto os tintos vão ser par ideal também para o bacalhau, mas igualmente para o cordeiro.
De um modo geral eu prefiro os brancos em receitas cremosas, como Zé do Pipo, espiritual, com natas ou como aperitivo em forma de bolinhos.
Em outras, como lagareiro ou à Brás, gosto mais de tintos. Mas a verdade é que, sendo do Dão, vai sempre ficar bom, me dizem os anos investigando e mastigando o assunto.
PORTO OU MADEIRA?
E, para encerrar?
Tenho uma teoria… uma grande refeição deve começar com Champanhe e terminar com uma garrafa de Porto ou Madeira, ou – por que, não? – dos dois.
São vinhos únicos e imortais, que nenhum outro país consegue reproduzir. Exclusividades de Portugal.
Um Porto Vintage ou Tawny 20 anos torna qualquer ocasião especial.
Uma das marcas que mais aprecio é a Taylor’s, com suas quintas de condições enólogicas perfeitas para a elaboração desse vinho, e suas caves na Vila Nova de Gaia com monumentais tonéis que guardam uma rara coleção de nectares antigos. Um vintage da Quinta das Vargellas é um monumento, do mesmo modo que os Colheitas com indicação de idade, preciosidades criadas pelo chefe de cave e sua equipe. Mesmo o Tawny 10 anos já é grandioso. O 20 anos é de emocionar. E o 40 anos… bem, os que quiserem beber ajoelhados, fiquem à vontade.
Atravessamos parte do Atlântico para pousar na Ilha da Madeira, outro ícone da enologia portuguesa e onde brotam outros vinhos clássicos e únicos: os Madeiras.
Desde os mais secos aos doces, o que se faz ali é algo fora de série, verdadeiro Patrimônio da Humanidade.
Procure as garrafas antigas, de 10, 20, 30, 40 anos ou até 50 anos, ou as com indicação da uva no rótulo, muitas vezes ainda gravado como antigamente, com tinta branca pintada em forma com a letra sobre a garrafa verde.

É preciso saber que o Madeira Sercial é um vinho seco e intenso, que vai muito bem com embutidos e com frutas secas, e é um excelente aperitivo. Já o Verdelho é meio seco, enquanto o Boal, ligeiramente com um pouco mais de açúcar, é meio doce. A quarta uva dessa classificação é a Malvasia, que é doce, e é um fecho de ouro para qualquer refeição. Prove com um bom gorgonzola ou Canastra curado, além de sobremesas típicas de Natal, com chocolate e frutas secas.

* Este post foi escrito para a coluna Enoteca YMG, do site You Must Go da querida amiga Renata Araújo. (Amanhã tem!).
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